quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Estilos e Leitura musical: dançando solos de derbake - Asmahan

Uma dúvida frequente das bailarinas de dança do ventre é como fazer na hora de dançar um solo de derbake ao vivo?

O grande mestre Hossam Ramzy explica que bons solos de derbake são feitos em partes de 4, isto é, cada pedaço do solo se repete 4 vezes, dessa forma, há tempo hábil para a bailarina aperfeiçoar a leitura de cada parte durante as suas repetições, além de dar uma cadência deliciosa na música. Essa forma de ver a leitura parte do princípio que o músico cria e a bailarina transforma o som em movimento (leia tudo sobre o que o mestre fala sobre leitura musical sobre esse ponto de vista no site dele, vale a pena).

Mas e se for ao contrário?

Observando diversos vídeos de bailarinas orientais, podemos encontrar vezes em que a bailarina dança e o músico é que segue, ele é que transforma os movimentos dela em sons.

Há algum tempo atrás me deparei com esse vídeo da bailarina egípcia Asmahan, e toda vez que o assisto eu preciso me segurar para não gargalhar alto. Nesse vídeo, Asmahan está dançando no Marrocos, com um derbakista que não está acostumado com esse tipo de "ponto de vista", e a bronca e as brincadeiras que ela faz por conta da falta de percepção do rapaz são simplesmente imperdíveis.

Vejamos!


A brincadeira começa quando ela começa a tentar mandar na orquestra em mais ou menos 1:45, ela quer um solo dos violinistas e começa a ler lindamente o que o violinista mais sênior está tocando. Daí o vídeo tem um corte em 2:15 para um solo de acordeon (que na verdade é o teclado, mas e daí?), que ela também lê lindamente com movimentos sinuosos. Em 2:35 tem outro corte no vídeo, para o solo de guitarra seguido por um solo do outro teclado. O vídeo infelizmente é muito cortado, pois tem outro corte em 3:18 para o solo da percussão, e aí quando a orquestra volta ela tenta pedir um certo tipo de som logo antes de mais um corte (daí não sabemos se os músicos entenderam! hahahaha) em 3:40. A parte divertida mesmo começa em 3:58. O solo de derbake! Você começa a ver que ela tenta pedir um certo tipo de som ao mover o shimmie para as laterais, mas o derbakista não está nem aí. Aí Asmahan começa a brincar com o público, que ele não está entendendo nada. Depois de mais um corte em 4:48 parece que a coisa deu uma melhorada, mas aí em 5:15 ela meio que perde a paciência, ele não percebeu que ela mudou o movimento e não fez as batidas com sonoridade adequada para o que ela quer, daí ela ignora o que ele está tocando e vai na direção dele olhando fixo e repetindo o movimento sem parar. Ele, coitado, parece não estar entendendo que aquilo é uma chamada  de atenção e mesmo olhando pra ela continua viajando na música da cabeça dele. Em 5:31 ela resolve sacanear mais um pouco e vira para o público, ela não gosta do que está ouvindo. Aí ela pega a cabeça do pobre coitado e aponta pra ela, mostra mais uma vez o movimento, e ainda nada. Até ela pedir pra ele simplesmente parar de tocar, em 5:50, e olhar pra ela. Aí ela mostra o movimento e ele toca, não está certo, ele tenta de novo, não, na terceira tentativa, olha a cara dela, aha! É isso! Aí ela começa a brincar na velocidade, e ele começa a acompanhar, mas logo dá mole (em 6:03), mas se recupera! Aí o público responde, claro! E Asmahan nem pensa duas vezes, vai para a beira do palco, manda o derbakista ficar quieto (em 6:30) e pede palmas para o shimmie dela. O derbakista não se segura e começa a acompanhar, claro, daí ela acrescenta marcações fortes de cabeça e braços e PEDE para o derbakista acompanhar, ele nada, claro. Então, a orquestra retoma em 6:59, e como a música é conhecida, Asmahan consegue trabalhar em cima. Em 7:50 o cantor sobe no palco e ela vai brincar com ele, querendo ver o que ele consegue fazer com o quadril, como ela rouba o microfone dele, ele quase perde a entrada dele da música e precisa pegar correndo o microfone em 8:00! Eu mencionei que esse vídeo é hilário? Pois bem. Ela ainda tenta controlar as coisas, mas, gente, tá difícil!

Vocês conhecem mais algum vídeo engraçado desse jeito com músicos que não estão entendendo as deixas? Se sim, compartilhe nos comentários!

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Estilos e leitura musical - Lissa Faker (revisto)

Ano novo que começa, é o momento para alimentar a nossa alma e nos encher de ideias para o ano que está começando!

Esse post deve ser curtinho, mas tem material para estudar por um bom tempo! Venho mostrar a vocês dois vídeos de duas bailarinas maravilhosas dançando a mesma música para que possamos estudar dois estilos diferentes fazendo uma belíssima leitura musical!

A música é Lissa Faker, da maior cantora árabe de todos os tempos, a egípcia Oum Kalthoum, de quem pretendo falar ainda esse ano no blog. Vale a pena reparar nas diferenças de arranjo entre as duas versões.

A primeira bailarina é a "diva-mór" Fifi Abdo, que eu tive o privilégio de ver ao vivo em Porto Alegre. Fifi não é conhecida por ser uma bailarina de muitos passos e variações, pelo contrário, mas a sua genialidade está na forma como ela consegue fazer o mesmo passo parecer sempre novo, espontâneo, na sua incrível presença e carisma. E, claro, no seu quadril bizarramente soltinho. A sua versão de Lissa Faker é um solo de alaúde, instrumento que combina demais com o seu tipo de movimento de quadril mais característico. Vale notar também o público cantando a letra no fundo no final!



Em termos de leitura musical da Fifi, repare que durante a primeira parte (até 2:38) a melodia se repete algumas vezes, e se você prestar atenção você vai ver que ela repete o que ela faz nas repetições. Repare que ela alonga os movimentos no momento em que a melodia dá uma "arrastada", às vezes ignorando o som vibratório do alaúde (fazendo movimentos sinuosos), às vezes acompanhando a vibração com shimmie. Em especial, a última frase dessa primeira parte aparece novamente no final do vídeo, e ela repete os movimentos, linda. Pessoalmente acho lindas as pausas que ela faz em 4:20 e 4:47.

A segunda bailarina é Lucy, outra diva dos anos 90 do Egito, que anda meio sumida ultimamente. Sua versão de Lissa Faker também tem um taksim, mas de qanoun, o que também pede shimmies, mas de outra qualidade, menorzinhos, como ela mostra tão lindamente na sua dança. Mas sua versão da música também tem momentos orquestrados e um curto taksim de flauta, e a sua leitura musical é absolutamente perfeita. É um vídeo para se rever e rever e rever muitas vezes.



 Lucy começa lendo o solo do qanoun com um shimmie bem pequininho, perfeito para o instrumento, depois cresce o movimento na entrada do violino, fazendo mudanças de direção. Quando começa a orquestra, ela cresce junto, marcando com os "alongamentos" da melodia, dando ênfase em 0:49, e continua lendo a melodia com o quadril até o início do acordeon em 0:59. Aí ela faz apenas básicos egípcios, numa leitura bem baladi do instrumento, voltando a leitura da melodia quando volta a orquestra em 1:08. Repare que ela volta com leves deslocamentos, marcando a diferença de tamanho entre os solos e a orquestra, e que no final, em 1:27, ela desloca a leitura pelo corpo, terminando na mão, fechando a frase. Perfeito. Até porque a música segue com o qanoun, que ela lê marcando suas pausas, e quando a orquestra responde em 1:35 ela faz giros, terminando no exato momento em que retorna o qanoun, outra resposta da orquestra ocorre em 1:46, e ela lê perfeitamente a melodia até novo retorno do qanoun em 1:53. Em 2:04 ela repete o que houve em 1:35. Depois durante o solo do qanoun, o violino aparece e ela responde também. Deusa. O fechamento em 2:30 é particularmente bonito. Quando a orquestra retorna ela volta a leitura com leve deslocamento, pegando a melodia todinha. Em 3:02 vem o taksim de flauta, e ela capricha, muda posicionamento e coloca tudo em movimentos de braços, mudando de direção quando o violino surge. A orquestra retorna em 3:10, e a diva pega tudo, finalizando em 3:21. Retorna o qanoun e ela parece que lê ainda mais a melodia do solo, fazendo um deslocamento com a resposta da orquestra em 3:35, e voltando ao qanoun em 3:40. A orquestra volta em 3:54, e ela marca com mudanças de direção, e o qanoun marca de novo presença em 4:01. Em 4:13 a orquestra responde de novo, e ela pega toda a melodia. Fico emocionada quando vejo essas coisas. E aí o qanoun volta, com pequenas marcações da orquestra, que ela pega com variações do quadril ou dos braços. Em 5:00 vem um taksim do qanoun, e ela pega tudo, a danada, o público a anima em 5:21 (yalla!) e a música retoma com o qanoun e a orquestra no fundo, indo para o final da apresentação, e ela termina igual a Fifi!

Aliás, esses dois vídeos, com essas duas versões da mesma música, são maravilhosos para ilustrar a diferença entre esses dois instrumentos musicais e suas leituras. Nada como aprender com grandes mestras!

Para quem quiser, segue também a versão "completa e original" da música! Mas prepare-se, são 46 minutos de divação! Repare que a parte que Lucy e Fifi dançam é apenas o início da música, que aqui não é um taksim, tem uma entrada com a orquestra e só depois Oum Kalthoum começa a cantar.


E que 2016 seja assim, com muito shimmie, muita dança, muito lililili e muita inspiração!

Nota de revisão: Primeiramente eu descrevi a versão que a Fifi dança como um taksim, mas como foi bem apontado pela Rebeca Bayeh, taksim não é só um solo, envolve também improviso. Dentro da versão da Fifi tem taksim, assim como na versão da Lucy, mas a peça em si não é um taksim :-) Aproveitei a revisão para fazer descrições mais detalhadas dos vídeos.

terça-feira, 9 de junho de 2015

Histórias da Dança: Badia Masabni

Desde o início do ano eu tenho andado meio sumida, mas isso apenas significa que andei estudando muito, repensando um monte de coisas... e que apesar de não ter escrito, muitas ideias têm passado pela minha cabeça, mesmo que elas ainda não tenham se transformado em posts.

Então, resolvi que para voltar aos poucos, tirando as teias de aranha do blog, era melhor começar com algo bem tranquilo, em termos de não conter nada que cause grande alvoroço na comunidade dançante, mas que, claro, seja algo inédito em português :-)

Nesses últimos meses resolvi me aprofundar na história documentada da dança do ventre, e nesse processo acabei topando com a lendária Badia Masabni. Descobri algumas fontes bem interessantes, que tratam bem detalhadamente sobre a vida dela, fiz um grande apanhado de tudo o que encontrei que tivesse um fonte minimamente confiável, e hoje trago para vocês a primeira parte da minha pesquisa.

Espero que gostem e fiquem de olho! Isso é apenas o começo...

Beijos!

Lalitha

Badia Masabni

Badia Al Masabni

De acordo com a sua autobiografia, Badia nasceu em Damasco (atual Síria) em 1894. Aos sete anos de idade, ela foi estuprada pelo dono de um café, que passou apenas quatro semanas na cadeia pelo crime, enquanto a vida de Badia mudou para sempre. Para evitar a sequente fofoca e a vergonha pelo o que aconteceu com uma das suas filhas, os pais de Badia levaram a família para a Argentina. Foi lá que Badia descobriu sua paixão pela música, dança e teatro.

Durante a sua adolescência, quando Badia entrou numa idade propícia para se casar, a família retornou à Síria. Porém, o seu passado não havia sido esquecido, e encontrar um marido se tornou uma tarefa muito difícil. Quando Badia finalmente se tornou noiva, os vizinhos contaram à família do noivo sobre o estupro, e o noivado foi interrompido.

Percebendo que lá ela não teria chance de prosperar, Badia decide fugir para Beirute, no Líbano. No trem, ela conhece uma mulher simpática que se oferece para ajuda-la, e quando elas chegam a Beirute, Badia descobre que a mesma “mulher simpática” era dona de um bordel. Sem ajuda da família, e sem ter uma profissão, Badia pensa numa solução para ganhar dinheiro que não envolva se prostituir, e assim ela se dedica às duas paixões da sua vida: canto e dança. Quando a sua mãe chega a Beirute para leva-la de volta para casa, Badia a convence a acompanha-la ao Cairo. Ela tinha 17 anos.

Já nessa época o Cairo era conhecido por ser um grande centro cultural, e Badia encontrou trabalho interpretando pequenos papéis na companhia teatral George Abiad. Ela mentia para sua mãe, dizendo que tinha conseguido um emprego noturno como costureira. Quando chegou o verão, época em que a companhia suspendia as apresentações no Cairo para fazer turnês pelo interior, Badia foi convidada a ir junto, dessa vez interpretando um papel importante. Então, sua mãe descobriu a verdade sobre o seu emprego e a forçou a pegar um trem de volta para casa. Quando o trem estava saindo para Alexandria, onde elas tomariam um navio para Beirute, Badia saltou do trem já em movimento e fugiu correndo. Ela conseguiu alcançar a companhia de teatro um dia antes deles partirem.

Em 1914, aos 20 anos, Badia estava atuando em Beirute, no famoso teatro da francesa Madame Jeanette, que empregava apenas artistas europeus, que se apresentavam para a elite libanesa. Mas Badia conseguiu convencer Madame a deixa-la atuar e cantar em árabe. Então, em setembro de 1914, Badia estreou acompanhada de duas mulheres austríacas, que tocavam alaúde e kanoun. Ela escolheu apresentar uma canção folclórica síria, dançando, cantando e tocando snujs, tudo ao mesmo tempo. Foi um grande sucesso, e ela ganhou uma apresentação fixa no teatro.

Badia continuou trabalhando pelo Líbano e pela Síria. E houve um episódio em Damasco, quando ela foi atacada por um dos seus irmãos, que quase a matou, tentando limpar a honra da família. Nessa época ela começou a trabalhar com a companhia do egípcio Nagib El Righany. Em 1921, ela retorna ao Cairo junto com ele, como a estrela da companhia. Todas as noites, Badia apresentava uma dança diferente, uma música nova e um figurino novo, o que mantinha o público muito intrigado e os fazia retornar.

Badia e Nagib se envolveram romanticamente e terminaram por se casar, mas o casamento foi conturbado e não durou muito tempo, apesar do relacionamento dos dois durar a vida inteira. Em 1926, Badia terminou de forma definitiva o casamento e abriu a sua própria casa de espetáculos, chamada Sala Badia Masabni, na Rua Emad El Din. (sala em árabe significa “hall de entrada”, podendo ser traduzido, nesse caso, de diversas formas, uma delas é Casino, que até é usado em árabe para descrever essas casas noturnas, mas é importante lembrar que esses Casinos não envolviam jogos de azar, eram casas noturnas com diversos tipos de espetáculos)

No início ela era praticamente a única artista se apresentando, mas conforme o seu sucesso cresceu, também aumentou a variedade das apresentações, que passou a incluir diversos músicos, peças de teatro, e depois dança oriental. Como outras casas da época, Badia começou contratando bailarinas de outras nacionalidades, como a turca Afranza Hanem.

Em 1928, Badia abriu uma casa noturna de veraneio, dessa vez em Alexandria, em El Selsela, chamada Sala Badia. Ela incluía um café, um jardim e uma vista espetacular do mar. Afranza Hanem também se apresentou lá. Essa casa funcionou apenas durante o verão de 28.

É importante ressaltar que até meados dos anos 20, a maioria das bailarinas se apresentava apenas em eventos, em casas particulares (casamentos, noivados etc), pequenos cafés ou em festivais ao ar livre. Dessa forma, ao levar bailarinas para a sua Sala, Badia precisou então contratar diversos artistas e coreógrafos para ajudar na adaptação da dança para o palco. Entre eles estavam Isaac Dixon, Robbie Robinson e Khristo Kladax, este último pode ser encontrado no Youtube dançando junto com Ketty e Nadia Gamal, em números de dança moderna. Foi nessa época também que surgiu o figurino mais associado com a dança do ventre, com o cinturão e o bustiê.

Em 1930, Badia voltou sua atenção para o desenvolvimento da sua Sala na rua Emad El Din. Nesse ano ela aumentou ainda mais a quantidade de músicos e bailarinas, entre essas últimas estavam Bouthania, Nadira, Khayriya e a libanesa Beba Ezzel Din, que se tornaria uma figura importante em sua vida.

Nesse ano também, Badia abriu uma nova casa noturna de veraneio, dessa vez em Gizé. Após diversas obras de melhorias, a casa reabriu em 1931, com um cinema chamado Cinema Badia, um teatro chamado Teatro Badia e uma casa noturna, com o nome Cabaret Badia. O complexo era chamado de Casino Badia.

Durante essa época, diversos artistas começaram a trabalhar com Badia, incluindo Tahia Carioca, que entrou para a grade de shows em 1933, quando a sua antiga “patroa” Souad Mahasen se aposentou. (o que é discutível, outras fontes indicam que Souad não queria que Tahia, que era da sua cidade natal entrasse para esse meio de reputação discutível, mas que a beleza de Tahia acabou por chegar nos ouvidos de Badia, e aí... o resto é história)

Um raro vídeo da Badia dançando com algumas bailarinas do seu Casino, entre as meninas do coro está Tahia Carioca!


Enquanto isso, Badia continuou investindo na sua carreira como atriz, fazendo diversas turnês teatrais. Durante essas turnês ela entregava a administração da Sala Badia no Cairo para o seu sobrinho Antoine, que era casado com a sua filha adotiva Juliet. Porém, o casamento entre os dois era de conveniência e eles não se davam bem, o que traria muitos problemas para Badia no futuro.

Em 1935 Badia tenta um movimento radical, ela anuncia que vai se aposentar dos casinos e do teatro e trabalhar apenas no cinema. O seu primeiro filme, Malikatel Massareh (Rainhas do Teatro), é lançado em 36, mas é um fracasso de bilheteria. Isso porque no mesmo ano foi lançado um grande filme com Um Kulthum. Logo em seguida, por motivos financeiros, Badia desiste de se aposentar e volta a trabalhar nos casinos e produzindo peças de teatro.

Porém, quando ela retorna, descobre que o seu sobrinho Antoine havia vendido a Sala Badia para a sua amante, a bailarina libanesa Beba Ezzel Din (eu disse que ela se tornaria importante!). Beba já havia despedido grande parte dos artistas da casa, incluindo Tahia. Na noite de estreia da casa com nova administração, Beba colocou diversos seguranças para impedir a entrada da antiga proprietária.

Além disso, Beba manteve o nome da casa, lucrando com o nome de Badia.

Em 1937, sem uma casa noturna, Badia alugou o teatro Brentania e produziu diversas peças para recuperar suas finanças. E, além disso, aproveitou o verão desse ano com sua casa noturna de veraneio em Gizé.

No final de 1938, ela abriu uma nova casa noturna na rua Emad El Din, ao lado da antiga Sala Badia, agora Sala Beba, e lhe deu o nome de Casino e Cabaret Badia. Tahia Carioca foi recontratada e dançou na noite de abertura. Apesar das casas noturnas serem uma do lado da outra, a casa de Badia recebia uma clientela de alta classe, da elite do Cairo, enquanto a casa de Beba recebia clientes mais populares, que muitas vezes ficavam embriagados e arranjavam confusão.

Em 39, Badia se concentrou nas suas casas noturnas e criou uma trupe de bailarinas, incluindo Tahia Carioca, que ela mesma ensaiava e ensinava.

Porém, no mesmo ano começou a segunda guerra mundial, que teve um impacto negativo no ambiente da rua Emal El Din, que passou a estar sempre cheia de soldados bêbados.

No ano seguinte, Badia conseguiu um empréstimo e comprou uma nova casa noturna, maior e mais bem localizada, na Royal Opera Square, com o primeiro palco em forma de arena para casas desse estilo. E essa casa noturna é que ficou conhecida como Casino Opera. Foi nesse Casino que surgiram as primeiras grandes estrelas da dança do ventre e do cinema egípcio. Além de Tahia Carioca, começaram no seu palco Samia Gamal, Nadia Gamal (que depois iria para o Líbano), Ketty, Hoda Shamsadine, Hagar Hamdy e Naima Akef (apesar de algumas fontes indicarem que ela na verdade começou na casa de Beba). Grandes músicos e cantores também começaram sua carreira lá, como Farid El Atrache, Ibrahim Hammouda e Mohamad Abdel Wahab.

Em 1950, após 10 anos de grande sucesso no casino mais famoso do Cairo, Badia decidiu vender a casa. Alguns fatores importantes a levaram a essa decisão.

Após o final da segunda guerra, Badia colocou novamente o seu sobrinho Antoine, a quem havia perdoado, na administração do Casino, além de convida-lo a viver na sua casa. O Casino também havia sido transferido para o nome dele, para facilitar o processo de herança caso algo acontecesse com ela. Ela decide então viajar pela Europa, em busca de novos talentos para o Casino.

Quando ela retorna de viagem, descobre que Antoine havia desaparecido, deixando a casa dela totalmente vazia e o Casino sem ninguém para administrar. Para piorar, quando ela finalmente encontra Antoine, ele está com uma nova amante, a atriz Soraya Helmi, com quem ele havia gasto uma enorme quantia de dinheiro, contraindo uma grande dívida. Em troca da devolução do Casino Opera, ele pede que ela pague todas as suas dívidas, o que Badia acaba aceitando.

Nessa mesma época, Beba Ezz El Din pede desculpas a Badia pelo o que havia feito no passado, e após as duas fazerem as pazes e acabarem por brigar novamente por conta do comportamento de Beba no Casino, Beba começa a espalhar o rumor de que Badia quer vender a casa.

A cereja do bolo foi a morte do seu antigo marido, Nagib El Righany, em meados de 1949.

Após a morte dele, Badia viaja ao Líbano e se apaixona por um jovem rapaz, cujo sonho era abrir uma livraria, mas que precisava da ajuda financeira dela para isso. Ela decide então voltar ao Cairo e realmente vender o Casino.

Badia então contata o seu advogado, solicitando que realize a venda, e aceita uma das primeiras propostas que surgem, sem saber que era de Beba. Quando ela descobre, Badia decide manter a venda, mas inclui uma cláusula que obriga Beba a manter o nome Casino Opera após a compra. Beba mantém a propriedade do Casino apenas até 1951, quando morre num acidente de carro.

Mas Badia ainda tem uma estrada tortuosa pela frente, o seu advogado não a avisou que de acordo com a nova legislação do Egito, qualquer venda desse tipo deveria ser informada ao Fisco dois meses antes do anúncio da venda, senão o negócio seria considerado como evasão de impostos, sendo sujeito a uma multa a ser estipulada arbitrariamente pelo Fisco. Ela seria obrigada a pagar essa multa ou ir para a cadeia.

Badia é pega de surpresa ao ser avisada de uma multa a ser paga com um valor superior à venda que havia feito. Ela então consulta um novo advogado, que além de confirmar que ela tinha mesmo essa multa a pagar, sugere que ela venda rapidamente todas as suas posses no país, senão seus bens seriam confiscados, o que ela faz rapidamente. Ela decide então que a melhor solução seria fugir do país, de forma que ela pega todas as suas jóias e dinheiro e vai para o aeroporto, onde ela é presa.

Após pagar uma fiança, ela vai novamente ao aeroporto, onde ela paga uma quantia generosa para um estrangeiro que a leva num jato particular para o Líbano.

A primeira coisa que ela faz ao chegar lá é solicitar novamente por sua cidadania libanesa, o que lhe é dado em setembro de 1950. Ela acaba por não se casar com o jovem que queria uma livraria, mas sim com outro rapaz, 22 anos mais novo, mas o relacionamento dura apenas 2 meses.

Depois, Badia acaba comprando uma fazenda no interior, onde ela também mantém uma espécie de cafeteria, e lá passa o restante dos seus dias.




Tahia Carioca visita Badia em sua fazenda no Líbano

Badia mostra sua fazenda para Tahia Carioca

Tahia e Badia na lanchonete da fazenda
 
 Para dar um gostinho, um pedacinho de uma entrevista de quase uma hora que ela deu para uma emissora de televisão árabe, onde ela aparece cantando e tocando snujs:

 





terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Agradecendo

No apagar das luzes de 2014 resolvi fazer uma lista rápida de agradecimentos pelo ano que está acabando, com esperanças de um 2015 ainda melhor!

2014 foi um ano difícil pessoalmente para mim, mas foi um ano de grandes oportunidades na dança!

Foi em 2014 que pude estudar no intensivão da Rachel Brice, de quem sou fã incondicional desde que a descobri nas Bellydance Superstars. Rachel é uma professora tão maravilhosa quanto ela é uma bailarina fantástica. Ela consegue ser capaz de fazer qualquer um acreditar que pode dominar qualquer técnica, suas aulas são uma experiência sensacional.



Em 2014 tive o privilégio de passar uma semana com os grandes mestres Serena e Hossam Ramzy, na Imersão organizada pela Dani Agnis em São Paulo (ATENÇÃO: QUEM PERDEU HOSSAM E SERENA ESTARÃO DE VOLTA AO BRASIL EM AGOSTO DE 2015!). Além de serem grandes mestres, posso dizer que são os professores de seu status mais acessíveis que já vi em toda a minha vida. Durante a imersão não há tempo ruim ou momento em que suas perguntas ou dúvidas deixarão de ser respondidas, sério. Além de passar a maior parte do tempo estudando com eles, você ainda pode tomar café da manhã, almoço ou o jantar ao lado deles conversando sobre o que quiser sobre a dança ou cultura árabe. No final do dia ainda tem um sarau, onde após as danças da noite ainda é aberta uma roda para perguntas que, juro, não tem hora para acabar. Enquanto houver perguntas sobre o assunto da noite eles ficarão lá respondendo. É uma experiência que muda a vida de uma bailarina para sempre. Você sai outra pessoa da imersão, é lindo. Ainda vou falar muito deles em 2015, aguardem!




Ainda nos pontos altos de 2014, não posso deixar de mencionar de jeito nenhum a vinda da grande ídolo Fifi Abdou à Porto Alegre na época do meu aniversário (obrigada aos Deuses pelo presente!). Aos mais de 60 anos de idade, Fifi infelizmente não tem mais o fôlego de quando era a Menina Baladi do Egito, mas ainda é a pessoa mais linda e charmosa que já vi ao vivo em toda a minha vida. Vídeo nenhum faz jus a essa mulher ao vivo. Ela é uma encarnação da Deusa Afrodite, só pode ser.


Ainda no mesmo evento, tive o prazer de conhecer o professor egípcio Asi Haskal. O que é esse homem minha gente? Parece um ser vindo do século passado para nos ensinar a dança do ventre tradicional! E que simpatia! E que técnica para ensinar sensacional! As aulas dele são para levar para sempre na sua vida, incrível.


E 2014 ainda teve um Festival Luxor sensacional: Randa Kamel, maravilhosa como sempre! Suas aulas deixam qualquer uma quebrada, essa mulher é uma força da natureza!


Mohamed Shahin também estava no Festival Luxor, e embora eu pessoalmente não curta muito o trabalho dele como bailarino, sou fã incondicional do seu trabalho como professor e coreógrafo. Adoro!!!! (um beijo para quem me achar nesse vídeo babando pelo Mohamed e pelo Tito em 2012 rsrsrs)


Para finalizar o ano com chave de ouro, ainda ganhei o Concurso Talentos de Derbake, organizado pela querida Rayzel Rosa! Infelizmente não tenho nem um videozinho dessa noite :-( mas tem foto!



Ainda queria agradecer as diversas pessoas que foram importantes para minha trajetória até agora: Rose Benzaquen, Jeana Kamil, Natália Trigo, Yasmin Yanukit, Dunia La Luna, Paola Blanton, Jhade Shariff, a equipe do Shakti, Mahavir, Sushiila, Hallux Angelstorm, Haniya Bel Hayat, meu marido, Carlos Carneiro e minha família. Sei que deixei um monte de gente de fora, mas agradeço de coração de qualquer forma, estão todos presentes no meu coração e na minha dança, de uma forma ou de outra.

GRATIDÃO!

UM LINDO 2015!

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Dançando com conteúdo

Por Lalitha

Depois de quase um ano sem postar aqui resolvi que era hora de voltar a escrever. Nesse ano sabático andei pensando e pesando diversas coisas, algumas muito controversas, e finalmente me sinto pronta e com energia para sair da toca e botar a boca no mundo novamente.

Uma das coisas que tem me incomodado nos últimos festivais e nas últimas apresentações que assisti é a falta de conteúdo na dança do ventre. O que quero dizer com conteúdo? É aquilo que a bailarina quer passar de mensagem para o seu público.  Não precisa ser nada muito complexo, veja bem, não estou dizendo que eu gostaria de ver na dança do ventre o mesmo estilo de performance super elaborada como se encontra em outros estilos de dança (apesar de ser bem vindo para arejar a nossa amada dança), mas pelo menos alguma EMOÇÃO em quem dança.

Não, sorriso automático não conta como emoção. Cara de sofrimento exagerada também não.

É engraçado como as vezes eu vejo bailarinas iniciantes preenchendo muito mais o palco com suas emoções do que bailarinas com anos de estrada. Fiquei me perguntando o que levaria a esse fenômeno, em que momento a técnica e a busca da perfeição tiram o brilho dos olhos da bailarina, e nessa busca fui estudar Isadora Duncan. Nesse estudo uma das lições que aprendi foi: o simples é muito difícil de atingir, mas costuma ser o mais eficaz e elegante. Outra lição importante foi que você precisa estar inteiramente presente em cada gesto, em cada movimento do seu corpo, e para isso, os seus gestos e movimentos precisam ter SIGNIFICADO.

Para a bailarina colocar significado na sua dança cheguei à conclusão que ela precisa não só sentir a música, mas compreendê-la. Quando a música é instrumental, e se a bailarina tiver um bom ouvido e um bom contato com as suas próprias emoções, apenas sentir a música é suficiente, mais do que suficiente. A dança se torna uma expressão do que a bailarina sente quando escuta aquela música, e o resultado pode ser sensacional. Porém, se a música tem letra, o buraco é mais embaixo.

Músicas com letras em árabe podem ser complicadas de se dançar, todos já estão carecas de ouvir histórias de bailarinas que dançaram músicas religiosas e ofenderam muçulmanos no processo, ou dançaram músicas que falavam de revoluções sangrentas como se fosse uma festa animada. Mas vou deixar esse tópico em específico para tratar depois, pois o problema é mais complexo, e árabe não é uma língua fácil.

Até porque mesmo tendo uma boa tradução na mão, ou se você fala árabe e a compreensão da música nesse sentido foi superada, ainda tem o problema que mencionei anteriormente: a bailarina precisa SENTIR, ela precisa ter noção de que sentimentos aquela música ou letra despertam nela mesma para então projetar aquilo para o público. E  é aí que tenho visto mais dificuldades e problemas.

Como criar o seu conteúdo? Como sentir/descobrir o que aquela música significa para você?

Para mim, tudo começa por uma pergunta: por que você dança? Qual é o seu real motivo para dançar? O que você busca alcançar com a sua dança?

A partir dessas respostas outras perguntas surgem, e quanto mais você descobrir sobre o que a motiva, mais emocionada você ficará ao ouvir um violino. Quanto mais explorar a si mesma, você ficará cada vez mais sensível aos seus próprios sentimentos, e aí, na hora de dançar é preciso sempre manter um esforço para deixar aquilo tudo fluir pelo seu corpo. E isso, na verdade, é necessário em todas as formas de arte. A diferença é que na dança e na música isso não só é visível no artista, como é irrepetível. Você nunca vai dançar igual duas vezes, mesmo com coreografia, simplesmente porque você não tem exatamente a mesma reação emotiva duas vezes.

E também nesse ponto que entra uma outra coisa que podemos fazer e que ajuda: "alimentar a alma". Quanto mais alimentamos nossa alma com coisas que nos toquem, que nos faça entrar em contato com os nossos sentimentos, mais sensíveis ficaremos para dançar. E aí vale tudo quanto é arte: pintura, literatura, cinema, músicas de todos os estilos, danças de todos os estilos.

Porque nessa busca do porquê dançar está incluída a pergunta: o que te toca? Quais quadros te fazem chorar, que filmes te fazem rir, que estilo de música te faz levantar e sair dançando?

Pessoalmente eu gosto muito de ler e de pintura e fotografia, então eu leio uma quantidade enorme de livros de ficção, tenho até um blog sobre isso, e criei a pouco tempo uma conta no pinterest, onde comecei a colecionar imagens que me tocam e me inspiram.

E adoro ver vídeos de danças de diversos estilos, sou daquelas que busca inspiração em todos os tipos de dança. Só para dar um gostinho, aqui um exemplo de um bailarino iraniano (mas que mora na França) que tem um trabalho que eu acho belíssimo e inspirador com leitura moderna da dança persa:

Primeiro uma filmagem de estúdio:

Agora dois vídeos de um espetáculo que ele criou com base em mitos persas:






Com o quê vocês alimentam a alma?

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

A Dança do Ventre vs O Mercado

No final do ano passado o mundo da dança do ventre foi novamente sacudido por conta de um vídeo da Esmeralda, onde ela diz com todas as letrinhas que para você trabalhar no mercado de dança do ventre não pode ser/estar gorda. Veja o vídeo aqui.

O Facebook virou quase praça de guerra por causa disso, com diversas pessoas concordando e discordando da nossa pedra preciosa. Pois nossa querida Esmeralda resolveu realmente cutucar onça com vara curta.

Vejamos, Esmeralda foi muito assertiva com a sua colocação, e com relação ao atual Mercado de dança do ventre, ela, infelizmente, está certa. Sejamos realistas, de todas as profissionais famosas (veja bem, além de profissional, aqui estamos falando de FAMA, porque é isso que o mercado define, certo?) quantas são gordinhas? E isso não tem absolutamente nada a ver com a qualidade das nossas maravilhosas profissionais fora do padrão. Todas já estamos cansadas de saber e de ver como a qualidade de uma bailarina de dança do ventre não tem nada a ver com o formato do corpo. Inclusive, nós professoras gostamos de falar sobre como a nossa dança é democrática, não é?

Antes de julgar o Mercado da dança, vamos entender uma coisa: estamos falando de Mercado, não de Arte. (o pessoal do Sala de Dança tratou desse assunto lindamente aqui). E além disso, estamos falando de um Mercado inserido num mundo mais amplo, numa cultura mais ampla. Para entender o mercado da dança do ventre, é preciso entender que ele nada mais é que um espelho de um mercado maior. E nesse mercado maior, o que se espera que seja uma mulher?

Vamos fazer a lista do que se espera que as mulheres sejam no nosso mundo atual: magras, gostosas, lindas, cheirosas, em forma, arrumadas, elegantes, sensuais (mas não muito, hein?), delicadas, amorosas, passivas... ufa! A lista não termina nunca, e é impossível de seguir à risca. Quer ter uma ideia do que se espera que seja uma mulher perfeita? Passe numa banca de jornal e olhe as capas das revistas. Sério, faça esse exercício e veja como o nosso mercado de dança é igualzinho: cheio de brancas, magras, de cabelão.

pequena amostra de capas de revistas nacionais, mas se você procurar no mundo inteiro vai ser muito parecido
E aí, percebemos que o problema não é da dança do ventre, nem do mercado específico da nossa amada dança. O problema é crônico e sistêmico na nossa sociedade. Tanto no Brasil quanto no exterior.

E chegamos ao ponto mais interessante desse assunto: como mudar isso? Porque não adianta fingir que o elefante não está na sala, que ele não vai sumir por pura mágica. As bailarinas de sucesso não vão passar a ser um exemplo de diversidade porque isso é o sonho de ninguém. (infelizmente, seria lindo se as coisas fossem simples assim)

Que tal começarmos a mudança em nós mesmas??? Primeira coisa e a mais importante de todas: parem de criticar as outras por causa da aparência. Quem nunca foi num show/festival e ouviu alguém fazendo comentários maldosos sobre o peso da bailarina em cena?

"Ela até que dança bem, pena que é gordinha/velha/magra demais/rótulo da vez."
(ai gente, desculpa, mas isso dói na alma, e olha que preconceito disfarçado de elogio é a coisa mais comum do mundo)

"Nossa, admiro a coragem dela de dançar mesmo assim em público."
(se ganhasse um real toda vez que eu ouvi essa frase eu estaria rica)

Gente, acorda, é aí que a coisa começa! Não julguem as outras pela sua aparência, seu peso, seu cabelo, sua cor de pele. Não é construtivo para ninguém. E isso é válido fora do meio da dança também, ok? (sabe aquela coisa de apontar os outros na rua? é falta de educação, tá? mesmo que seja em voz baixa)

Segunda coisa: PRESTIGIEM as bailarinas que vocês gostam independentemente de quão dentro ou fora do padrão elas sejam: gordinhas, baixinhas, negras (brasileiro é mestre em dizer que não é racista, mas, falando sério, quantas bailarinas negras aparecem como destaque por aí?), de cabelos alternativos, tatuadas, da terceira idade, do sexo masculino... porque a ARTE não tem fronteiras. Para mudar o mercado, precisamos de mais gente querendo ver coisas DIFERENTES!

Terceira coisa: para aquelas que organizam shows/festivais, por favor, escolham as participantes dos seus eventos pelo seu mérito, não pela "beleza" que vão trazer para o seu banner, ou porque você está trocando favor com alguém. Vamos fazer mais eventos alternativos? Para mudar o mercado, precisamos provar que o que não está sendo mostrado no mercado também faz sucesso, nem para isso a gente crie o nosso próprio mercado :-)

Então vamos à prova cabal de que a dança é para todxs???? (desmentindo a parte da fala da Esmeralda sobre a necessidade de um tipo de corpo para a dança aparecer?)

Começando com uma grande mestra do Rio de Janeiro: Samra Sanches!!!



Passando pela hours-concours Natalia Trigo, também do Rio:



Não podemos esquecer a campeã do Mercado Persa, Joelma Brasil:



A maga dos quadris Dunia La Luna, de São Paulo:



Temos a fabulosa Najla El Hazine, professora de São Paulo, que me faz quase chorar quando a vejo dançar:



Temos também a Tahya Brasileye:



A fofíssima Mayara Rajal, do Rio:



Também do Rio, a estudiosa Lu Ain-Zaila:



E mais uma do Rio, arrasando ao vivo com músicos egípcios, Eliza Fari:



As terras cariocas estão cheias de talento... Smirna prova que maturidade é importante!



Entre as estrangeiras, temos a diva Caroline Labrie:



Então, gente, vamos deixar os nossos preconceitos em 2013 e começar 2014 com novas ideias e concepções?

PS: Em tempo, quem quiser argumentar que no Egito é diferente, pense nos padrões de beleza que eles valorizam, e para ouvir uma boa descrição de onde veio esse padrão (abrangendo inclusive a questão do racismo que muito brasileiro gosta de fingir que não existe aqui), veja esse podcast aqui.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Ressurgindo das Cinzas



Depois de mais de seis meses longe do blog, resolvi que era hora de voltar.

O que fiz nesse tempo todo? Parei para refletir.

Sabe todo aquele processo de olhar para dentro, procurar as suas razões para fazer as coisas e tentar definir onde você quer chegar? Pois é. Não é fácil.

Esse ano de 2013 foi muito importante para mim na dança, aprendi quase tanto quanto em todos os anos anteriores juntos. Mas não estou falando de técnica (apesar de avalio que também avancei nesse quesito), mas de espírito.

Para mim, 2013 foi o ano que eu reencontrei a dança dentro de mim. Porque o que era tão espontâneo quando era uma aluna sem metas profissionais, com o tempo foi virando uma grande prisão de técnica e regras. Você já teve essa sensação? No meu caso, o meu grande alerta foi um amigo meu, que sempre me assistiu dançando, que me deu: "sua dança está perfeita, mas não senti a emoção que eu sentia quando te via dançar antigamente" foi o que ele me disse.



Nesse momento (isso já faz alguns anos, vejam só) me senti meio perdida. Era como se todo aquele esforço que eu havia empreendido nos últimos anos tivesse virado pó, não valesse nada. Não parei de dançar por isso, não, de jeito nenhum, mas comecei uma outra espécie de busca, que vim a descobrir muito mais importante do que uma técnica perfeita de quadril. POR QUE EU DANÇO?

Foi mais ou menos no início dessa busca que comecei o blog também. E hoje vejo que ele não serviu tanto para me ajudar, justamente por conta de uma das barreiras mais comuns para uma bailarina (que é a mesma de todos os artistas na verdade): INSEGURANÇA. Como abrir para todos que quisessem ler que eu estava em busca de uma resposta para uma pergunta aparentemente tão boba? Como dar a cara à tapa e ser humilde o suficiente para voltar atrás e dizer que não sabia a resposta. PARA QUE DANÇAR?

Nessa busca, tive aliados muito valiosos, uma delas inclusive agora eu organizo workshops aqui no Rio. Paola Blanton, bailarina, professora de filosofia, e uma das pessoas mais interessantes que já conheci, é uma das que preciso agradecer. Suas aulas de técnicas de Isadora Duncan voltaram a trazer poesia aos meus movimentos, um novo sentido para cada passo, um novo olhar para a técnica e a técnica além da técnica. Descobri através de Isadora Duncan, outras sábias do mundo da dança: Ruth St. Denis e sua filosofia lindíssima de que a arte e a religião deveriam ser a mesma coisa, e o cultivo do corpo deveria ser como o cuidado que um músico tem com o seu instrumento. E isso é válido para todos, não só bailarinos. Agradeço portanto a essas grandes mestras do passado, sem vocês minha dança teria estagnado para sempre numa tentativa de repetir o que já fui um dia.



Agradeço a simpática Luna do Cairo, que me permitiu tanto traduzir o seu blog (que eu pretendo continuar traduzindo, mas talvez não com a mesma velocidade), e me deu uma aula particular quando estive em Nova Iorque esse ano, num momento em que eu estava frágil nessa busca e me mostrou ao vivo como a dança é libertadora não só para o corpo mas também para a alma. Sua coragem de voltar para o Egito em agosto desse ano é simplesmente inspiradora. Luna me mostra a todo o momento como é importante viver a sua verdade. Ela é linda.



Agradeço a todos que fazem o Podcast de dança "Sala de Dança". Carol Louro, Bruna Milani, Valéria Alves e o Diretor são pessoas que me inspiraram demais esse ano. E me ensinaram muito também. Apesar de eu nunca ter feito um comentário (muito porque só agora no final do ano eu consegui ouvir tudo e ficar em dia com as publicações), suas conversas sobre a dança e a vida me ajudaram demais nesse caminho. Não só aprendi muito com vocês, como também vocês me mostraram que era possível e importante fazer justamente o que estava me dando medo: dar a cara a tapa e simplesmente ser você mesmo. Obrigada, obrigada, obrigada e obrigada.

Agradeço também Dunya McPherson, uma guia espiritual sufi e bailarina de dança do ventre fantástica, que mesmo com a enorme distância que nos separa, conseguiu me transformar, tanto através do seu livro autobiográfico, quanto através dos cursos maravilhosos de dança meditação que eu tive a sorte de conseguir fazer com ela pelo youtube. O seu livro foi um grande turnpoint na minha vida, e os seus cursos serviram para que eu experimentasse na prática as mudanças de consciência que ela me propôs.

Porque no final dessa jornada (na verdade é só início, mas tudo bem), era isso que eu precisava: mudança de consciência. Porque a dança não é para "espantar os outros" (né, Paola? rsrsrs) é uma ferramenta para conhecer a si mesmo. E toda vez que eu subo no palco hoje, eu tento responder aquela pergunta: POR QUE EU DANÇO? Confesso que às vezes a resposta varia. E às vezes eu simplesmente ignoro essa pergunta e tento simplesmente SER. É mais fácil e mais difícil do que parece.


E a partir de agora o blog vai mudar um pouco. Vou continuar com o conteúdo de tradução, as indicações de livros e tudo o mais que já tinha antes. Mas isso será diluído para o blog ter mais a minha cara, o meu jeito de ser (e de dançar, claro).

Eu tinha muitas outras pessoas para agradecer também, por isso vou fazer um pequeno resumo, mas mesmo quem não aparecer nessa pequena lista, por favor, aceite também a minha gratidão.

Carlos Carneiro, meu marido e grande aturador das minhas loucuras
Mahavir Thury, meu professor de yoga
O pessoal do Bellydance Solidário, especialmente Nitya Montenegro, Nynah Jamile, Dania Ruaida, Ly Lateef, Clarisse Pacheco, Mayara Rajal e Jorginho
Minhas alunas!!!!
Equipe da escola Asmahan
Equipe do Shakti
Dunia La Luna
Minhas mestras: Rose Benzaquen (minha primeira professora de dança), Jeana Kamil, Yasmin Anukit e Natalia Trigo

E para finalizar, vou colocar aqui um vídeo que já postei no Facebook, mas que merece ser visto e revisto diversas vezes.


Desejo a todos vocês BOAS FESTAS, que 2014 seja um ano de crescimento e de coisas boas.



quarta-feira, 12 de junho de 2013

Livro do Mês: Isadora Duncan a Graphic Biography

Sei que estou atrasadíssima com os posts e gostaria de me desculpar, mas são fases, né? Estou numa fase meio enrolada mesmo, muitos projetos ao mesmo tempo dá nisso ;-)

Mas vamos lá que, desculpas às parte, temos um livro para comentar/indicar!


Hoje vou sugerir uma leitura bem diferente do que já vimos até agora no blog: uma Graphic Novel, ou, num português esquisito, um romance gráfico (título da Wikipédia, tá? não fui eu quem inventou!). Numa explicação rápida, é uma história em quadrinhos grande, contando uma história fechada (com início, meio e fim, sem essa coisa de continuações intermináveis, tão comuns no meio dos quadrinhos), análoga a um livro.

Isadora Duncan
Nesse caso, a história é a biografia da bailarina revolucionária Isadora Duncan! Para quem não conhece, Isadora é conhecida por muitos como a mãe da dança moderna, e ela foi buscar inspiração para a sua dança singular e totalmente revolucionária na época na natureza (nas ondas do mar, nos ventos batendo nas árvores...), na arte grega (especialmente na estatuária grega clássica, e também na mitologia) e buscando os movimentos mais naturais do corpo humano (um dos pontos da sua dança que mais lembra a dança do ventre, que também diz-se se aproveitar de movimentos naturais do corpo feminino, certo?). Nessa busca Isadora também buscou a liberdade da mulher e do corpo feminino, o que por si só já deixaria a sua dança e sua história interessantes para nós, estudiosas da dança do ventre.

Isadora Duncan dançando na praia
Isadora Duncan numa das poses de "sereia"

Agora, a vantagem dessa Graphic Novel é justamente o fato dela ser gráfica! Porque apesar da biografia apresentada ser um pouco superficial, o livro em si é uma obra de arte! Imagine, é um livro sobre uma bailarina maravilhosa onde tudo é contado através de imagens! Preciso dizer mais alguma coisa para te interessar na sua leitura?

Uma das páginas da Graphic Novel para dar um gostinho... lembra uma foto acima? ;-)
Posso, né? Então, Isadora além de tudo o que eu já disse, foi uma das precursoras do uso de tecidos na dança, e alguns ainda dizem que foi uma das inspirações da famosa Badia Masabni ao incluir o uso do véu entre as suas bailarinas. Quer mais? Isadora Duncan ainda incluiu nos seus estudos a busca pelo lado espiritual da dança, a dança como meio de expressão da alma.

Isadora Duncan com um "véu"
Mas nem tudo foram flores na vida dessa bailarina que atingiu um nível de estrelato fora do comum na sua época, pois ela foi marcada de tragédias, dignas de um verdadeiro romance!

Isadora e seus filhos, Deirdre e Patrick,
uma tragédia de partir o coração...

Isadora e suas alunas


Agora que te deixei morrendo de vontade de saber mais e ler o livro, tenho dois avisos: 1- o livro não é perfeito (mais detalhes na resenha que fiz aqui), 2- o livro só está disponível em inglês (mas você pode encontrá-lo em sebos internacionais como esse, caso o problema seja apenas financeiro, infelizmente para o problema da tradução ainda não há solução).

Agora a boa notícia! Se você não lê inglês (ou lê, mas quer ainda mais informações), teremos um curso sobre Isadora Duncan e suas técnicas de dança no Rio de Janeiro em julho!


Quer ter um gostinho do que será tratado no curso? Leia o artigo da professora Paola Blanton "As Dançarinas do Futuro Somos Nós"


sexta-feira, 24 de maio de 2013

Kisses from Kairo - “Vivendo o sonho”


Domingo, 9 de setembro, 2012


Por Luna do Cairo
Traduzido por Lalitha   


Eu sempre sou pega desprevenida por toda bailarina que me diz que eu estou “vivendo o sonho”. Toda vez que escuto isso tenho vontade de perguntar, sério? Que sonho? Eu nunca sonhei em ser uma bailarina de dança do ventre no Cairo. Eu nem sabia que isso era possível! =D

Verdade seja dita, eu não vim para o Egito com o objetivo de ser uma “estrela”, ou porque alguém inflou o meu ego com mentiras. Eu vim para o Egito porque estava com o coração partido. Eu não tinha terminado com um namorado nem nada do gênero. Mas alguns anos antes, em 2006, eu vi algo que eu realmente queria e achava que não poderia ter. Eu vi a verdadeira dança do ventre egípcia num festival no Cairo, e eu queria desesperadamente aprende-la. Como atingir esse nível de excelência na dança requer muitos anos de vida no Cairo, decidi que era impossível e fiquei deprimida.

Acabou que eu estava errada. Afinal, eu tenho vivido no Cairo há 4 anos. Mesmo assim, na época, se você tivesse me dito que isso iria acontecer, eu teria respondido que eu também acredito na fada do dente. Eu tinha acabado de entrar em Harvard, e passaria os dois anos seguintes da minha vida ali, e depois arranjaria um emprego e teria filhos. Eu não conseguia imaginar interromper o curso natural das coisas para encaixar o Egito. Nem conseguia imaginar a logística necessária para empreender tal esforço. Como eu chegaria lá? Onde eu ficaria? Quem iria me contratar para que eu trabalhasse para pagar o aluguel e todas as aulas de dança? Incertezas demais, muitas dificuldades, sem ter dinheiro.

Até que um dia, as coisas começaram a se encaixar. Enquanto eu estava em Harvard, eu tive a brilhante idéia de concorrer a uma bolsa Fulbright para estudar no Egito. Eu iria pesquisar sobre Dança Oriental ganhando um salário por 9 meses. Eu sabia que fazer com que State Department americano financiasse uma pesquisa sobre dança do ventre era um tiro no escuro, mas cheguei à conclusão que eu não perderia nada tentando. Então eu tentei. Para minha surpresa, eu ganhei uma bolsa. Aparentemente, o comitê da Fulbright estava interessado na minha hipótese de que a islamização mais a estagnação econômica estava causando uma decadência cultural, e que isso estava penalizando as artes performáticas.

Naquele verão, eu me formei em Harvard e me preparei para me mudar para o Egito. Eu pouco sabia que o meu humilde desejo de aprender a dançar iria eventualmente gerar uma carreira profissional como bailarina de dança do ventre no Cairo.

Após uns 6 meses na minha nova vida no Egito, me foi oferecida a oportunidade de dançar num resort no Mar Vermelho, a duas horas do Cairo. O pagamento era ruim, a viagem de carro era perigosa e de embrulhar o estômago. E o que era pior, eu me sentia intimidada de fazer um show de uma hora para um público egípcio. Eu não sabia que músicas dançar, e não me sentia confortável em improvisar. As roupas que eu tinha eram duas que eu não gostava muito. Em outras palavras, eu estava completamente despreparada. Ainda assim agarrei a oportunidade porque, bem, eu nunca recuso uma. Mesmo que eu não esteja preparada para ela. Eu aprendi que oportunidades só aparecem uma vez na vida – sejam elas de amor, trabalho, ou o que quer que seja. Talvez os ricos possam comprar as deles, mas nós, reles mortais, precisamos agarrá-las quando elas aparecem. E fico feliz que eu tenha feito isso. Apesar da minha sensação de incapacidade naquela noite, eu recebi as boas-vindas mais calorosas que uma bailarina pode desejar. Sem dúvida, foi mais do que umas boas-vindas ao palco. Foi uma recepção ao que seria a minha futura carreira, e uma que eu nunca vou esquecer.

Depois de quase dois anos dançando na maioria dos resorts do Mar Vermelho, um jovem dervixe rodopiante que dançava entre os meus shows me perguntou se eu queria fazer um teste no Memphis, um cruzeiro no Nilo onde ele trabalhava. Legalmente falando, eu não poderia ter colocado nem o pé naquele barco. Eu já havia sido contratada no Semíramis, e a lei egípcia proíbe que bailarinas estrangeiras trabalhem em mais de um lugar. Mesmo assim eu aceitei a oferta dele e fiz o teste. Uma combinação do meu sexto sentido mais o fato de que eu nunca tinha dançado no Semíramis (essa era a razão) me fez aceitar.

Para a minha alegria, eu passei no teste. Na mesma noite, o gerente me pediu para trabalhar a noite toda, todas as noites. Eu expliquei que fazer isso seria ilegal – que o máximo que eu me permitiria fazer era dançar duas noites por semana, e que isso seria muito generoso da minha parte. Mas quanto mais eu recusava, mais eles insistiam que conseguiriam a minha permissão legal para dançar se eu saísse do Semíramis. Eu agradeci pela oferta, mas recusei. Em primeiro lugar, eu não acreditava que eles fossem cumprir o prometido. Aqui é tudo da boca pra fora, e as promessas são vazias. Eu não iria cancelar a minha permissão com o Semíramis (mesmo que eu não estivesse dançando) na esperança de que um gerente de um cruzeiro iria honrar as suas promessas. Em segundo lugar, tinha o fator nome/prestígio. Não tem como conseguir nada melhor do que o Semíramis aqui (mesmo sem estar dançando). Me “rebaixar” a um cruzeiro no Nilo seria impensável, e um grande golpe na minha carreira no Egito.

Um mês depois, o momento que o cruzeiro esperava chegou. O gerente do Semíramis cancelou o meu contrato de trabalho e direito a residência, me deixando completamente desamparada. Nós brigamos seriamente porque ele ignorou os meus pedidos para viajar para casa por conta de uma morte na minha família. Então ele me despediu.

Não posso negar. Aquele cruzeiro no Nilo não parecia tão ruim depois dessa experiência horrorosa. Eu informei ao gerente do cruzeiro que o sonho dele tinha se tornado realidade – que eu tinha sido despedida do Semíramis – e que agora estava disponível. Ouvindo essa notícia, o gerente geral do cruzeiro não perdeu tempo em me contratar. Ele já tinha percebido um aumento nos lucros depois de apenas um mês em que eu estava dançando lá, por isso não queria me perder para a polícia da dança do ventre ou para outro estabelecimento. Na verdade, ele não só me contratou como entrou com um pedido de licença para que o cruzeiro pudesse contratar bailarinas estrangeiras, um passo que tomou muito tempo e dinheiro. Desde então, eu tenho dançado lá toda noite com a minha banda – não só no cruzeiro, mas também em casamentos e outros tipos de festa. Também já apareci na TV egípcia como solista e em clipes musicais. No que diz respeito a isso, a minha vida realmente tem sido um sonho.

Também tem sido um sonho o fato de que eu aprendi a dançar do jeito que eu sempre quis aprender. Isso não teria acontecido se eu não tivesse conseguido a permissão legal para dançar. Claro, aulas são importantes. Mas não há nada como o palco e um punhado de músicos toda noite para te ensinar a dançar. Tem algo na espontaneidade de tudo isso, na interação com o público egípcio, que te dá um bom entendimento da música e do sentimento dessa dança. As performances constantes também me mantêm sob pressão. Eu tenho um público cativo, assim como agentes com quem trabalho com freqüência, então tenho que estar sempre apresentando coisas novas. Além disso, eu enjôo rápido. Isso significa que estou sempre pensando em novas montagens e novas roupas. É divertido, mas dá muito trabalho. Se não estou ensaiando com a minha banda, estou procurando novos materiais ou desenhando e comprando novas roupas. É realmente um trabalho de tempo integral, e eu tenho muita sorte de poder dedicar todo o meu tempo a isso.

Apesar do aspecto fantasioso do meu trabalho como bailarina de dança do ventre no Cairo, eu acho que é importante colocar as coisas sob perspectiva. O fato de eu ter conseguido um emprego fixo aqui foi um golpe de sorte. Alguns podem dizer que foi destino. Eu não sabia nem que o Memphis existia nem pedi para fazer o teste. E o fato deles quererem me contratar de verdade foi algo fora do padrão. A maioria dos lugares não são generosos a ponto de fazer contratos com bailarinas estrangeiras, muito menos pagando todas as taxas necessárias para isso. E ainda por cima, essa oportunidade veio depois de dois anos de só seguir o fluxo – e não procurando por uma oportunidade para dançar, mas aceitando aquelas que apareciam para mim. Também veio depois de dois anos de sofrimento e de desilusão. Apesar de eu nunca ter intencionado trabalhar no Egito, era exatamente isso que estava acontecendo. E isso estava se tornando uma fonte de brigas na maioria dos meus relacionamentos pessoais e profissionais. Então, ao mesmo tempo em que percebo que o desenrolar da minha carreira tem um final de conto de fadas (ou início, dependendo de como você vê), eu ainda acho que as pessoas se enganam um pouco quando dizem que estou “vivendo o sonho”.

Verdade seja dita, esse sonho vira pesadelo mais frequentemente do que eu gostaria de admitir. Apesar de todas as vantagens, dançar no Cairo requer muito trabalho duro. Na verdade, reparei que o trabalho duro vem na mesma proporção que a satisfação e o sucesso que você atinge. Para começar, eu me tornei muito defensiva. Tem sempre um monte de gente no meio tentando tirar vantagem em cima de você, seja pelo dinheiro ou pelo sexo. Não acontece sempre, mas é freqüente o suficiente para que o meu modo padrão de lidar com as pessoas seja na defensiva. Especialmente com aqueles que eu ainda não tenho uma relação de confiança profissional. Para mim, todos são culpados até que se provem inocentes.

Além disso, tem as questões legais. A “polícia da dança do ventre”, ou musanafat e adab para ser exata. São eles que regulam as licenças, e garantem que você não está “indecente” na sua dança ou na sua roupa. Quando esses caras pegam no seu pé, a coisa pode ficar feia. As penalidades incluem multas, prisão e deportação para estrangeiras, e dependem de diversos fatores. A violação que você cometeu é um deles. Dançar sem cobrir a barriga é uma violação menos grave do que dançar ilegalmente. Dançar sem cobrir a barriga e ilegalmente é muito pior. :) Se a polícia foi chamada ou não por outra bailarina com ciúmes é outro fator. Se esse for o caso, você pode ser perdoada ou punida severamente por suas violações reais ou empíricas. Isso vai depender do tipo de relacionamento entre o policial e a bailarina que o enviou, claro. :)

Num outro nível, se adaptar à cultura requer lidar com alguns desafios. Alguns conceitos culturais e religiosos pré-definidos sobre a mulher não combinam comigo. Nem os restritos códigos não-oficiais de conduta e vestuário. Sem mencionar o constante assédio sexual. Isso pode ser massacrante. Ter que estar o tempo todo se cobrindo, mesmo quando está um calor insuportável do lado de fora, ter que esconder a minha profissão de todos para não ser expulsa do meu apartamento (o que já me aconteceu antes), não poder me expressar livremente – todas essas coisas podem ser extremamente irritantes.

Sob todas as condições que descrevi, você poderia imaginar que uma comunidade de dança acolhedora seria o meio ideal para se apoiar. Mas, infelizmente, esse não é o caso. Apesar de haver aquelas almas verdadeiras que eu amo como se fossem minha família, a comunidade em geral é a antítese de acolhedora. Você descobre que conforme vai subindo na carreira, fofocas difamatórias e falsas acusações começam a proliferar. Muitos ou inventam fofocas sobre o que você fez para conseguir o seu emprego, ou se mostram muito inclinados em acreditar nas piores histórias sobre você. Alguns até tentam destruir a sua carreira. Todo mundo ama um Zé-ninguém. Mas poucos gostam realmente de alguém. E é por isso que você não sabe quem são seus verdadeiros amigos até que coisas boas aconteçam para você. Juro que parece que você está novamente na escola. Só que dessa vez eu já sei como me erguer e me manter acima dessas coisas de um jeito que eu não sabia aos 15 anos de idade. Não importa o que você diga ou faça, não importa como você dança, sempre vai ter alguém te odiando, criticando, ridicularizando e te colocando para baixo. Então você chega num ponto em que simplesmente para de se importar – um ponto no qual você se sente livre para ser quem você é sem se preocupar com o que os outros pensam. Pode parecer desagradável, mas também é libertador.

Contudo, não é sobre isso que quero falar. Isso vem com o pacote de dançar no Egito, e na verdade tem sido uma fonte para o meu crescimento pessoal. Pessoalmente, eu acho que o meu maior desafio não é nem a cultura nem o ambiente pouco amigável da dança. É algo mais interno do que isso. É algo que eu gosto de chamar de síndrome do “e se”. Eu amo o meu trabalho e sei o quão sortuda eu sou por tê-lo. Mas o questionamento do e se eu tivesse feito diferente me atormenta. Quer dizer, vamos encarar a verdade. Uma mulher comum não faria as decisões que eu fiz na vida. Uma pessoa comum não se desviaria tanto da estrada testada e aprovada para o sucesso para seguir um sonho vago de aprender a dançar num país do terceiro mundo. E apesar de muitas pessoas me louvarem por isso, talvez haja uma razão pela qual a estrada menos percorrida é menos percorrida. Levar uma vida não-convencional pode ser divertido, mas significa se colocar numa vida feita de incertezas e improvisos. E não quero dizer que isso acontece no palco. Eu não tenho mais uma “coreografia” para a vida como costumava ter. Eu abandonei isso quatro anos atrás. Eu troquei os ensaios pela “vida real”. Estou apenas vivendo a vida, um dia de cada vez. Boêmia. Certamente não é a vida que imaginei para mim mesma. E muito assustadora.

Hoje em dia, com todo o sofrimento que acontece no mundo, começo a me sentir culpada por ter o trabalho dos meus sonhos. Tem gente lutando para conseguir colocar comida na mesa, e pessoas pelo mundo todo dando as suas vidas pela liberdade. Uma delas era amiga minha, e fez isso recentemente na Síria. E aqui estou eu, dançando. Celebrando. O quê, eu não sei. Mas as pessoas dizem que dança é celebração. Então isso começa a parecer errado. Um pouco egoísta... Sem sentido... Vazio.


O que quer que seja que eu estou passando, espero sinceramente que seja temporário, e que eu saia dessa. Me esforcei demais em lançar a minha carreira só para desistir porque acho que dançar é “haram”, apesar de ser por motivos próprios. (Engraçado eu ter mais medo de mim mesma do que da Irmandade Muçulmana proibir a dança!) Se não for mais nada, a forma como estou me sentindo é a prova de que estou vivendo um sonho. Talvez não “O” sonho, mas um sonho num sentido de que tudo o que acontece, seja bom ou ruim, é maior do que a vida. E nos dá essa sensação de irrealidade. Lá no fundo, tem uma parte de mim que gosta disso. Talvez seja por isso que estou rezando para não acordar tão cedo.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Livro do Mês: A Ponte das Turquesas


Ainda no clima de sugerir livros diferentes (cansei um pouco de sugerir apenas livros de literatura ou que falem sobre o Egito), vamos aproveitar o final da novela Salve Jorge e falar sobre a Turquia!

A Ponte das Turquesas foi o livro que me convenceu a escolher a Turquia como destino para a minha lua de mel em 2012 e que virou o diário de viagem que vocês podem ler aqui. Escrito pela historiadora brasileira  Fernanda de Camargo-Moro, o livro é um misto de memórias, relatos de viagem, história e livro de culinária, e de quebra ainda consegue apresentar Istambul como um lugar mágico, cheio de mistérios e de coisas interessantes para descobrir (o que é uma descrição muito realista, diga-se de passagem).

Capa da edição disponível nas melhores livrarias
É engraçado quando começamos a estudar o mundo árabe como às vezes esquecemos dessa cidade tão importante na história mundial, afinal não é qualquer lugar que pode dizer que tem raízes clássicas gregas, resquícios romanos e cristãos e mais tarde ainda virou a capital do Império Otomano, que é muçulmano. É tanta informação e tanta história, importante tanto para o Ocidente quanto para o Oriente, que é difícil acreditar que a autora conseguiu resumir tudo isso num só livro.

E que livro! Além de ser bem escrito (confesso que fiquei receosa por conta de traumas com livros de história soporíferos na época da escola), ele traz histórias pessoais interessantes, e inclui não só a história da cidade, mas também da gastronomia ali presente! É de ficar com água na boca! E como babamos durante essa leitura, se não é com as receitas, é com as belíssimas descrições de Istambul, que faz jus aos elogios quando pisamos os pés por lá e vemos essa jóia da arquitetura ao vivo.

Fica a dica de uma leitura leve, diferente, informativa e cativante :-)

E se alguém fizer uma receita desse livro, por favor me chame!!!!

Vocês podem ver a resenha original do livro aqui.