quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Dançando com conteúdo

Por Lalitha

Depois de quase um ano sem postar aqui resolvi que era hora de voltar a escrever. Nesse ano sabático andei pensando e pesando diversas coisas, algumas muito controversas, e finalmente me sinto pronta e com energia para sair da toca e botar a boca no mundo novamente.

Uma das coisas que tem me incomodado nos últimos festivais e nas últimas apresentações que assisti é a falta de conteúdo na dança do ventre. O que quero dizer com conteúdo? É aquilo que a bailarina quer passar de mensagem para o seu público.  Não precisa ser nada muito complexo, veja bem, não estou dizendo que eu gostaria de ver na dança do ventre o mesmo estilo de performance super elaborada como se encontra em outros estilos de dança (apesar de ser bem vindo para arejar a nossa amada dança), mas pelo menos alguma EMOÇÃO em quem dança.

Não, sorriso automático não conta como emoção. Cara de sofrimento exagerada também não.

É engraçado como as vezes eu vejo bailarinas iniciantes preenchendo muito mais o palco com suas emoções do que bailarinas com anos de estrada. Fiquei me perguntando o que levaria a esse fenômeno, em que momento a técnica e a busca da perfeição tiram o brilho dos olhos da bailarina, e nessa busca fui estudar Isadora Duncan. Nesse estudo uma das lições que aprendi foi: o simples é muito difícil de atingir, mas costuma ser o mais eficaz e elegante. Outra lição importante foi que você precisa estar inteiramente presente em cada gesto, em cada movimento do seu corpo, e para isso, os seus gestos e movimentos precisam ter SIGNIFICADO.

Para a bailarina colocar significado na sua dança cheguei à conclusão que ela precisa não só sentir a música, mas compreendê-la. Quando a música é instrumental, e se a bailarina tiver um bom ouvido e um bom contato com as suas próprias emoções, apenas sentir a música é suficiente, mais do que suficiente. A dança se torna uma expressão do que a bailarina sente quando escuta aquela música, e o resultado pode ser sensacional. Porém, se a música tem letra, o buraco é mais embaixo.

Músicas com letras em árabe podem ser complicadas de se dançar, todos já estão carecas de ouvir histórias de bailarinas que dançaram músicas religiosas e ofenderam muçulmanos no processo, ou dançaram músicas que falavam de revoluções sangrentas como se fosse uma festa animada. Mas vou deixar esse tópico em específico para tratar depois, pois o problema é mais complexo, e árabe não é uma língua fácil.

Até porque mesmo tendo uma boa tradução na mão, ou se você fala árabe e a compreensão da música nesse sentido foi superada, ainda tem o problema que mencionei anteriormente: a bailarina precisa SENTIR, ela precisa ter noção de que sentimentos aquela música ou letra despertam nela mesma para então projetar aquilo para o público. E  é aí que tenho visto mais dificuldades e problemas.

Como criar o seu conteúdo? Como sentir/descobrir o que aquela música significa para você?

Para mim, tudo começa por uma pergunta: por que você dança? Qual é o seu real motivo para dançar? O que você busca alcançar com a sua dança?

A partir dessas respostas outras perguntas surgem, e quanto mais você descobrir sobre o que a motiva, mais emocionada você ficará ao ouvir um violino. Quanto mais explorar a si mesma, você ficará cada vez mais sensível aos seus próprios sentimentos, e aí, na hora de dançar é preciso sempre manter um esforço para deixar aquilo tudo fluir pelo seu corpo. E isso, na verdade, é necessário em todas as formas de arte. A diferença é que na dança e na música isso não só é visível no artista, como é irrepetível. Você nunca vai dançar igual duas vezes, mesmo com coreografia, simplesmente porque você não tem exatamente a mesma reação emotiva duas vezes.

E também nesse ponto que entra uma outra coisa que podemos fazer e que ajuda: "alimentar a alma". Quanto mais alimentamos nossa alma com coisas que nos toquem, que nos faça entrar em contato com os nossos sentimentos, mais sensíveis ficaremos para dançar. E aí vale tudo quanto é arte: pintura, literatura, cinema, músicas de todos os estilos, danças de todos os estilos.

Porque nessa busca do porquê dançar está incluída a pergunta: o que te toca? Quais quadros te fazem chorar, que filmes te fazem rir, que estilo de música te faz levantar e sair dançando?

Pessoalmente eu gosto muito de ler e de pintura e fotografia, então eu leio uma quantidade enorme de livros de ficção, tenho até um blog sobre isso, e criei a pouco tempo uma conta no pinterest, onde comecei a colecionar imagens que me tocam e me inspiram.

E adoro ver vídeos de danças de diversos estilos, sou daquelas que busca inspiração em todos os tipos de dança. Só para dar um gostinho, aqui um exemplo de um bailarino iraniano (mas que mora na França) que tem um trabalho que eu acho belíssimo e inspirador com leitura moderna da dança persa:

Primeiro uma filmagem de estúdio:

Agora dois vídeos de um espetáculo que ele criou com base em mitos persas:






Com o quê vocês alimentam a alma?

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

A Dança do Ventre vs O Mercado

No final do ano passado o mundo da dança do ventre foi novamente sacudido por conta de um vídeo da Esmeralda, onde ela diz com todas as letrinhas que para você trabalhar no mercado de dança do ventre não pode ser/estar gorda. Veja o vídeo aqui.

O Facebook virou quase praça de guerra por causa disso, com diversas pessoas concordando e discordando da nossa pedra preciosa. Pois nossa querida Esmeralda resolveu realmente cutucar onça com vara curta.

Vejamos, Esmeralda foi muito assertiva com a sua colocação, e com relação ao atual Mercado de dança do ventre, ela, infelizmente, está certa. Sejamos realistas, de todas as profissionais famosas (veja bem, além de profissional, aqui estamos falando de FAMA, porque é isso que o mercado define, certo?) quantas são gordinhas? E isso não tem absolutamente nada a ver com a qualidade das nossas maravilhosas profissionais fora do padrão. Todas já estamos cansadas de saber e de ver como a qualidade de uma bailarina de dança do ventre não tem nada a ver com o formato do corpo. Inclusive, nós professoras gostamos de falar sobre como a nossa dança é democrática, não é?

Antes de julgar o Mercado da dança, vamos entender uma coisa: estamos falando de Mercado, não de Arte. (o pessoal do Sala de Dança tratou desse assunto lindamente aqui). E além disso, estamos falando de um Mercado inserido num mundo mais amplo, numa cultura mais ampla. Para entender o mercado da dança do ventre, é preciso entender que ele nada mais é que um espelho de um mercado maior. E nesse mercado maior, o que se espera que seja uma mulher?

Vamos fazer a lista do que se espera que as mulheres sejam no nosso mundo atual: magras, gostosas, lindas, cheirosas, em forma, arrumadas, elegantes, sensuais (mas não muito, hein?), delicadas, amorosas, passivas... ufa! A lista não termina nunca, e é impossível de seguir à risca. Quer ter uma ideia do que se espera que seja uma mulher perfeita? Passe numa banca de jornal e olhe as capas das revistas. Sério, faça esse exercício e veja como o nosso mercado de dança é igualzinho: cheio de brancas, magras, de cabelão.

pequena amostra de capas de revistas nacionais, mas se você procurar no mundo inteiro vai ser muito parecido
E aí, percebemos que o problema não é da dança do ventre, nem do mercado específico da nossa amada dança. O problema é crônico e sistêmico na nossa sociedade. Tanto no Brasil quanto no exterior.

E chegamos ao ponto mais interessante desse assunto: como mudar isso? Porque não adianta fingir que o elefante não está na sala, que ele não vai sumir por pura mágica. As bailarinas de sucesso não vão passar a ser um exemplo de diversidade porque isso é o sonho de ninguém. (infelizmente, seria lindo se as coisas fossem simples assim)

Que tal começarmos a mudança em nós mesmas??? Primeira coisa e a mais importante de todas: parem de criticar as outras por causa da aparência. Quem nunca foi num show/festival e ouviu alguém fazendo comentários maldosos sobre o peso da bailarina em cena?

"Ela até que dança bem, pena que é gordinha/velha/magra demais/rótulo da vez."
(ai gente, desculpa, mas isso dói na alma, e olha que preconceito disfarçado de elogio é a coisa mais comum do mundo)

"Nossa, admiro a coragem dela de dançar mesmo assim em público."
(se ganhasse um real toda vez que eu ouvi essa frase eu estaria rica)

Gente, acorda, é aí que a coisa começa! Não julguem as outras pela sua aparência, seu peso, seu cabelo, sua cor de pele. Não é construtivo para ninguém. E isso é válido fora do meio da dança também, ok? (sabe aquela coisa de apontar os outros na rua? é falta de educação, tá? mesmo que seja em voz baixa)

Segunda coisa: PRESTIGIEM as bailarinas que vocês gostam independentemente de quão dentro ou fora do padrão elas sejam: gordinhas, baixinhas, negras (brasileiro é mestre em dizer que não é racista, mas, falando sério, quantas bailarinas negras aparecem como destaque por aí?), de cabelos alternativos, tatuadas, da terceira idade, do sexo masculino... porque a ARTE não tem fronteiras. Para mudar o mercado, precisamos de mais gente querendo ver coisas DIFERENTES!

Terceira coisa: para aquelas que organizam shows/festivais, por favor, escolham as participantes dos seus eventos pelo seu mérito, não pela "beleza" que vão trazer para o seu banner, ou porque você está trocando favor com alguém. Vamos fazer mais eventos alternativos? Para mudar o mercado, precisamos provar que o que não está sendo mostrado no mercado também faz sucesso, nem para isso a gente crie o nosso próprio mercado :-)

Então vamos à prova cabal de que a dança é para todxs???? (desmentindo a parte da fala da Esmeralda sobre a necessidade de um tipo de corpo para a dança aparecer?)

Começando com uma grande mestra do Rio de Janeiro: Samra Sanches!!!



Passando pela hours-concours Natalia Trigo, também do Rio:



Não podemos esquecer a campeã do Mercado Persa, Joelma Brasil:



A maga dos quadris Dunia La Luna, de São Paulo:



Temos a fabulosa Najla El Hazine, professora de São Paulo, que me faz quase chorar quando a vejo dançar:



Temos também a Tahya Brasileye:



A fofíssima Mayara Rajal, do Rio:



Também do Rio, a estudiosa Lu Ain-Zaila:



E mais uma do Rio, arrasando ao vivo com músicos egípcios, Eliza Fari:



As terras cariocas estão cheias de talento... Smirna prova que maturidade é importante!



Entre as estrangeiras, temos a diva Caroline Labrie:



Então, gente, vamos deixar os nossos preconceitos em 2013 e começar 2014 com novas ideias e concepções?

PS: Em tempo, quem quiser argumentar que no Egito é diferente, pense nos padrões de beleza que eles valorizam, e para ouvir uma boa descrição de onde veio esse padrão (abrangendo inclusive a questão do racismo que muito brasileiro gosta de fingir que não existe aqui), veja esse podcast aqui.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Ressurgindo das Cinzas



Depois de mais de seis meses longe do blog, resolvi que era hora de voltar.

O que fiz nesse tempo todo? Parei para refletir.

Sabe todo aquele processo de olhar para dentro, procurar as suas razões para fazer as coisas e tentar definir onde você quer chegar? Pois é. Não é fácil.

Esse ano de 2013 foi muito importante para mim na dança, aprendi quase tanto quanto em todos os anos anteriores juntos. Mas não estou falando de técnica (apesar de avalio que também avancei nesse quesito), mas de espírito.

Para mim, 2013 foi o ano que eu reencontrei a dança dentro de mim. Porque o que era tão espontâneo quando era uma aluna sem metas profissionais, com o tempo foi virando uma grande prisão de técnica e regras. Você já teve essa sensação? No meu caso, o meu grande alerta foi um amigo meu, que sempre me assistiu dançando, que me deu: "sua dança está perfeita, mas não senti a emoção que eu sentia quando te via dançar antigamente" foi o que ele me disse.



Nesse momento (isso já faz alguns anos, vejam só) me senti meio perdida. Era como se todo aquele esforço que eu havia empreendido nos últimos anos tivesse virado pó, não valesse nada. Não parei de dançar por isso, não, de jeito nenhum, mas comecei uma outra espécie de busca, que vim a descobrir muito mais importante do que uma técnica perfeita de quadril. POR QUE EU DANÇO?

Foi mais ou menos no início dessa busca que comecei o blog também. E hoje vejo que ele não serviu tanto para me ajudar, justamente por conta de uma das barreiras mais comuns para uma bailarina (que é a mesma de todos os artistas na verdade): INSEGURANÇA. Como abrir para todos que quisessem ler que eu estava em busca de uma resposta para uma pergunta aparentemente tão boba? Como dar a cara à tapa e ser humilde o suficiente para voltar atrás e dizer que não sabia a resposta. PARA QUE DANÇAR?

Nessa busca, tive aliados muito valiosos, uma delas inclusive agora eu organizo workshops aqui no Rio. Paola Blanton, bailarina, professora de filosofia, e uma das pessoas mais interessantes que já conheci, é uma das que preciso agradecer. Suas aulas de técnicas de Isadora Duncan voltaram a trazer poesia aos meus movimentos, um novo sentido para cada passo, um novo olhar para a técnica e a técnica além da técnica. Descobri através de Isadora Duncan, outras sábias do mundo da dança: Ruth St. Denis e sua filosofia lindíssima de que a arte e a religião deveriam ser a mesma coisa, e o cultivo do corpo deveria ser como o cuidado que um músico tem com o seu instrumento. E isso é válido para todos, não só bailarinos. Agradeço portanto a essas grandes mestras do passado, sem vocês minha dança teria estagnado para sempre numa tentativa de repetir o que já fui um dia.



Agradeço a simpática Luna do Cairo, que me permitiu tanto traduzir o seu blog (que eu pretendo continuar traduzindo, mas talvez não com a mesma velocidade), e me deu uma aula particular quando estive em Nova Iorque esse ano, num momento em que eu estava frágil nessa busca e me mostrou ao vivo como a dança é libertadora não só para o corpo mas também para a alma. Sua coragem de voltar para o Egito em agosto desse ano é simplesmente inspiradora. Luna me mostra a todo o momento como é importante viver a sua verdade. Ela é linda.



Agradeço a todos que fazem o Podcast de dança "Sala de Dança". Carol Louro, Bruna Milani, Valéria Alves e o Diretor são pessoas que me inspiraram demais esse ano. E me ensinaram muito também. Apesar de eu nunca ter feito um comentário (muito porque só agora no final do ano eu consegui ouvir tudo e ficar em dia com as publicações), suas conversas sobre a dança e a vida me ajudaram demais nesse caminho. Não só aprendi muito com vocês, como também vocês me mostraram que era possível e importante fazer justamente o que estava me dando medo: dar a cara a tapa e simplesmente ser você mesmo. Obrigada, obrigada, obrigada e obrigada.

Agradeço também Dunya McPherson, uma guia espiritual sufi e bailarina de dança do ventre fantástica, que mesmo com a enorme distância que nos separa, conseguiu me transformar, tanto através do seu livro autobiográfico, quanto através dos cursos maravilhosos de dança meditação que eu tive a sorte de conseguir fazer com ela pelo youtube. O seu livro foi um grande turnpoint na minha vida, e os seus cursos serviram para que eu experimentasse na prática as mudanças de consciência que ela me propôs.

Porque no final dessa jornada (na verdade é só início, mas tudo bem), era isso que eu precisava: mudança de consciência. Porque a dança não é para "espantar os outros" (né, Paola? rsrsrs) é uma ferramenta para conhecer a si mesmo. E toda vez que eu subo no palco hoje, eu tento responder aquela pergunta: POR QUE EU DANÇO? Confesso que às vezes a resposta varia. E às vezes eu simplesmente ignoro essa pergunta e tento simplesmente SER. É mais fácil e mais difícil do que parece.


E a partir de agora o blog vai mudar um pouco. Vou continuar com o conteúdo de tradução, as indicações de livros e tudo o mais que já tinha antes. Mas isso será diluído para o blog ter mais a minha cara, o meu jeito de ser (e de dançar, claro).

Eu tinha muitas outras pessoas para agradecer também, por isso vou fazer um pequeno resumo, mas mesmo quem não aparecer nessa pequena lista, por favor, aceite também a minha gratidão.

Carlos Carneiro, meu marido e grande aturador das minhas loucuras
Mahavir Thury, meu professor de yoga
O pessoal do Bellydance Solidário, especialmente Nitya Montenegro, Nynah Jamile, Dania Ruaida, Ly Lateef, Clarisse Pacheco, Mayara Rajal e Jorginho
Minhas alunas!!!!
Equipe da escola Asmahan
Equipe do Shakti
Dunia La Luna
Minhas mestras: Rose Benzaquen (minha primeira professora de dança), Jeana Kamil, Yasmin Anukit e Natalia Trigo

E para finalizar, vou colocar aqui um vídeo que já postei no Facebook, mas que merece ser visto e revisto diversas vezes.


Desejo a todos vocês BOAS FESTAS, que 2014 seja um ano de crescimento e de coisas boas.



quarta-feira, 12 de junho de 2013

Livro do Mês: Isadora Duncan a Graphic Biography

Sei que estou atrasadíssima com os posts e gostaria de me desculpar, mas são fases, né? Estou numa fase meio enrolada mesmo, muitos projetos ao mesmo tempo dá nisso ;-)

Mas vamos lá que, desculpas às parte, temos um livro para comentar/indicar!


Hoje vou sugerir uma leitura bem diferente do que já vimos até agora no blog: uma Graphic Novel, ou, num português esquisito, um romance gráfico (título da Wikipédia, tá? não fui eu quem inventou!). Numa explicação rápida, é uma história em quadrinhos grande, contando uma história fechada (com início, meio e fim, sem essa coisa de continuações intermináveis, tão comuns no meio dos quadrinhos), análoga a um livro.

Isadora Duncan
Nesse caso, a história é a biografia da bailarina revolucionária Isadora Duncan! Para quem não conhece, Isadora é conhecida por muitos como a mãe da dança moderna, e ela foi buscar inspiração para a sua dança singular e totalmente revolucionária na época na natureza (nas ondas do mar, nos ventos batendo nas árvores...), na arte grega (especialmente na estatuária grega clássica, e também na mitologia) e buscando os movimentos mais naturais do corpo humano (um dos pontos da sua dança que mais lembra a dança do ventre, que também diz-se se aproveitar de movimentos naturais do corpo feminino, certo?). Nessa busca Isadora também buscou a liberdade da mulher e do corpo feminino, o que por si só já deixaria a sua dança e sua história interessantes para nós, estudiosas da dança do ventre.

Isadora Duncan dançando na praia
Isadora Duncan numa das poses de "sereia"

Agora, a vantagem dessa Graphic Novel é justamente o fato dela ser gráfica! Porque apesar da biografia apresentada ser um pouco superficial, o livro em si é uma obra de arte! Imagine, é um livro sobre uma bailarina maravilhosa onde tudo é contado através de imagens! Preciso dizer mais alguma coisa para te interessar na sua leitura?

Uma das páginas da Graphic Novel para dar um gostinho... lembra uma foto acima? ;-)
Posso, né? Então, Isadora além de tudo o que eu já disse, foi uma das precursoras do uso de tecidos na dança, e alguns ainda dizem que foi uma das inspirações da famosa Badia Masabni ao incluir o uso do véu entre as suas bailarinas. Quer mais? Isadora Duncan ainda incluiu nos seus estudos a busca pelo lado espiritual da dança, a dança como meio de expressão da alma.

Isadora Duncan com um "véu"
Mas nem tudo foram flores na vida dessa bailarina que atingiu um nível de estrelato fora do comum na sua época, pois ela foi marcada de tragédias, dignas de um verdadeiro romance!

Isadora e seus filhos, Deirdre e Patrick,
uma tragédia de partir o coração...

Isadora e suas alunas


Agora que te deixei morrendo de vontade de saber mais e ler o livro, tenho dois avisos: 1- o livro não é perfeito (mais detalhes na resenha que fiz aqui), 2- o livro só está disponível em inglês (mas você pode encontrá-lo em sebos internacionais como esse, caso o problema seja apenas financeiro, infelizmente para o problema da tradução ainda não há solução).

Agora a boa notícia! Se você não lê inglês (ou lê, mas quer ainda mais informações), teremos um curso sobre Isadora Duncan e suas técnicas de dança no Rio de Janeiro em julho!


Quer ter um gostinho do que será tratado no curso? Leia o artigo da professora Paola Blanton "As Dançarinas do Futuro Somos Nós"


sexta-feira, 24 de maio de 2013

Kisses from Kairo - “Vivendo o sonho”


Domingo, 9 de setembro, 2012


Por Luna do Cairo
Traduzido por Lalitha   


Eu sempre sou pega desprevenida por toda bailarina que me diz que eu estou “vivendo o sonho”. Toda vez que escuto isso tenho vontade de perguntar, sério? Que sonho? Eu nunca sonhei em ser uma bailarina de dança do ventre no Cairo. Eu nem sabia que isso era possível! =D

Verdade seja dita, eu não vim para o Egito com o objetivo de ser uma “estrela”, ou porque alguém inflou o meu ego com mentiras. Eu vim para o Egito porque estava com o coração partido. Eu não tinha terminado com um namorado nem nada do gênero. Mas alguns anos antes, em 2006, eu vi algo que eu realmente queria e achava que não poderia ter. Eu vi a verdadeira dança do ventre egípcia num festival no Cairo, e eu queria desesperadamente aprende-la. Como atingir esse nível de excelência na dança requer muitos anos de vida no Cairo, decidi que era impossível e fiquei deprimida.

Acabou que eu estava errada. Afinal, eu tenho vivido no Cairo há 4 anos. Mesmo assim, na época, se você tivesse me dito que isso iria acontecer, eu teria respondido que eu também acredito na fada do dente. Eu tinha acabado de entrar em Harvard, e passaria os dois anos seguintes da minha vida ali, e depois arranjaria um emprego e teria filhos. Eu não conseguia imaginar interromper o curso natural das coisas para encaixar o Egito. Nem conseguia imaginar a logística necessária para empreender tal esforço. Como eu chegaria lá? Onde eu ficaria? Quem iria me contratar para que eu trabalhasse para pagar o aluguel e todas as aulas de dança? Incertezas demais, muitas dificuldades, sem ter dinheiro.

Até que um dia, as coisas começaram a se encaixar. Enquanto eu estava em Harvard, eu tive a brilhante idéia de concorrer a uma bolsa Fulbright para estudar no Egito. Eu iria pesquisar sobre Dança Oriental ganhando um salário por 9 meses. Eu sabia que fazer com que State Department americano financiasse uma pesquisa sobre dança do ventre era um tiro no escuro, mas cheguei à conclusão que eu não perderia nada tentando. Então eu tentei. Para minha surpresa, eu ganhei uma bolsa. Aparentemente, o comitê da Fulbright estava interessado na minha hipótese de que a islamização mais a estagnação econômica estava causando uma decadência cultural, e que isso estava penalizando as artes performáticas.

Naquele verão, eu me formei em Harvard e me preparei para me mudar para o Egito. Eu pouco sabia que o meu humilde desejo de aprender a dançar iria eventualmente gerar uma carreira profissional como bailarina de dança do ventre no Cairo.

Após uns 6 meses na minha nova vida no Egito, me foi oferecida a oportunidade de dançar num resort no Mar Vermelho, a duas horas do Cairo. O pagamento era ruim, a viagem de carro era perigosa e de embrulhar o estômago. E o que era pior, eu me sentia intimidada de fazer um show de uma hora para um público egípcio. Eu não sabia que músicas dançar, e não me sentia confortável em improvisar. As roupas que eu tinha eram duas que eu não gostava muito. Em outras palavras, eu estava completamente despreparada. Ainda assim agarrei a oportunidade porque, bem, eu nunca recuso uma. Mesmo que eu não esteja preparada para ela. Eu aprendi que oportunidades só aparecem uma vez na vida – sejam elas de amor, trabalho, ou o que quer que seja. Talvez os ricos possam comprar as deles, mas nós, reles mortais, precisamos agarrá-las quando elas aparecem. E fico feliz que eu tenha feito isso. Apesar da minha sensação de incapacidade naquela noite, eu recebi as boas-vindas mais calorosas que uma bailarina pode desejar. Sem dúvida, foi mais do que umas boas-vindas ao palco. Foi uma recepção ao que seria a minha futura carreira, e uma que eu nunca vou esquecer.

Depois de quase dois anos dançando na maioria dos resorts do Mar Vermelho, um jovem dervixe rodopiante que dançava entre os meus shows me perguntou se eu queria fazer um teste no Memphis, um cruzeiro no Nilo onde ele trabalhava. Legalmente falando, eu não poderia ter colocado nem o pé naquele barco. Eu já havia sido contratada no Semíramis, e a lei egípcia proíbe que bailarinas estrangeiras trabalhem em mais de um lugar. Mesmo assim eu aceitei a oferta dele e fiz o teste. Uma combinação do meu sexto sentido mais o fato de que eu nunca tinha dançado no Semíramis (essa era a razão) me fez aceitar.

Para a minha alegria, eu passei no teste. Na mesma noite, o gerente me pediu para trabalhar a noite toda, todas as noites. Eu expliquei que fazer isso seria ilegal – que o máximo que eu me permitiria fazer era dançar duas noites por semana, e que isso seria muito generoso da minha parte. Mas quanto mais eu recusava, mais eles insistiam que conseguiriam a minha permissão legal para dançar se eu saísse do Semíramis. Eu agradeci pela oferta, mas recusei. Em primeiro lugar, eu não acreditava que eles fossem cumprir o prometido. Aqui é tudo da boca pra fora, e as promessas são vazias. Eu não iria cancelar a minha permissão com o Semíramis (mesmo que eu não estivesse dançando) na esperança de que um gerente de um cruzeiro iria honrar as suas promessas. Em segundo lugar, tinha o fator nome/prestígio. Não tem como conseguir nada melhor do que o Semíramis aqui (mesmo sem estar dançando). Me “rebaixar” a um cruzeiro no Nilo seria impensável, e um grande golpe na minha carreira no Egito.

Um mês depois, o momento que o cruzeiro esperava chegou. O gerente do Semíramis cancelou o meu contrato de trabalho e direito a residência, me deixando completamente desamparada. Nós brigamos seriamente porque ele ignorou os meus pedidos para viajar para casa por conta de uma morte na minha família. Então ele me despediu.

Não posso negar. Aquele cruzeiro no Nilo não parecia tão ruim depois dessa experiência horrorosa. Eu informei ao gerente do cruzeiro que o sonho dele tinha se tornado realidade – que eu tinha sido despedida do Semíramis – e que agora estava disponível. Ouvindo essa notícia, o gerente geral do cruzeiro não perdeu tempo em me contratar. Ele já tinha percebido um aumento nos lucros depois de apenas um mês em que eu estava dançando lá, por isso não queria me perder para a polícia da dança do ventre ou para outro estabelecimento. Na verdade, ele não só me contratou como entrou com um pedido de licença para que o cruzeiro pudesse contratar bailarinas estrangeiras, um passo que tomou muito tempo e dinheiro. Desde então, eu tenho dançado lá toda noite com a minha banda – não só no cruzeiro, mas também em casamentos e outros tipos de festa. Também já apareci na TV egípcia como solista e em clipes musicais. No que diz respeito a isso, a minha vida realmente tem sido um sonho.

Também tem sido um sonho o fato de que eu aprendi a dançar do jeito que eu sempre quis aprender. Isso não teria acontecido se eu não tivesse conseguido a permissão legal para dançar. Claro, aulas são importantes. Mas não há nada como o palco e um punhado de músicos toda noite para te ensinar a dançar. Tem algo na espontaneidade de tudo isso, na interação com o público egípcio, que te dá um bom entendimento da música e do sentimento dessa dança. As performances constantes também me mantêm sob pressão. Eu tenho um público cativo, assim como agentes com quem trabalho com freqüência, então tenho que estar sempre apresentando coisas novas. Além disso, eu enjôo rápido. Isso significa que estou sempre pensando em novas montagens e novas roupas. É divertido, mas dá muito trabalho. Se não estou ensaiando com a minha banda, estou procurando novos materiais ou desenhando e comprando novas roupas. É realmente um trabalho de tempo integral, e eu tenho muita sorte de poder dedicar todo o meu tempo a isso.

Apesar do aspecto fantasioso do meu trabalho como bailarina de dança do ventre no Cairo, eu acho que é importante colocar as coisas sob perspectiva. O fato de eu ter conseguido um emprego fixo aqui foi um golpe de sorte. Alguns podem dizer que foi destino. Eu não sabia nem que o Memphis existia nem pedi para fazer o teste. E o fato deles quererem me contratar de verdade foi algo fora do padrão. A maioria dos lugares não são generosos a ponto de fazer contratos com bailarinas estrangeiras, muito menos pagando todas as taxas necessárias para isso. E ainda por cima, essa oportunidade veio depois de dois anos de só seguir o fluxo – e não procurando por uma oportunidade para dançar, mas aceitando aquelas que apareciam para mim. Também veio depois de dois anos de sofrimento e de desilusão. Apesar de eu nunca ter intencionado trabalhar no Egito, era exatamente isso que estava acontecendo. E isso estava se tornando uma fonte de brigas na maioria dos meus relacionamentos pessoais e profissionais. Então, ao mesmo tempo em que percebo que o desenrolar da minha carreira tem um final de conto de fadas (ou início, dependendo de como você vê), eu ainda acho que as pessoas se enganam um pouco quando dizem que estou “vivendo o sonho”.

Verdade seja dita, esse sonho vira pesadelo mais frequentemente do que eu gostaria de admitir. Apesar de todas as vantagens, dançar no Cairo requer muito trabalho duro. Na verdade, reparei que o trabalho duro vem na mesma proporção que a satisfação e o sucesso que você atinge. Para começar, eu me tornei muito defensiva. Tem sempre um monte de gente no meio tentando tirar vantagem em cima de você, seja pelo dinheiro ou pelo sexo. Não acontece sempre, mas é freqüente o suficiente para que o meu modo padrão de lidar com as pessoas seja na defensiva. Especialmente com aqueles que eu ainda não tenho uma relação de confiança profissional. Para mim, todos são culpados até que se provem inocentes.

Além disso, tem as questões legais. A “polícia da dança do ventre”, ou musanafat e adab para ser exata. São eles que regulam as licenças, e garantem que você não está “indecente” na sua dança ou na sua roupa. Quando esses caras pegam no seu pé, a coisa pode ficar feia. As penalidades incluem multas, prisão e deportação para estrangeiras, e dependem de diversos fatores. A violação que você cometeu é um deles. Dançar sem cobrir a barriga é uma violação menos grave do que dançar ilegalmente. Dançar sem cobrir a barriga e ilegalmente é muito pior. :) Se a polícia foi chamada ou não por outra bailarina com ciúmes é outro fator. Se esse for o caso, você pode ser perdoada ou punida severamente por suas violações reais ou empíricas. Isso vai depender do tipo de relacionamento entre o policial e a bailarina que o enviou, claro. :)

Num outro nível, se adaptar à cultura requer lidar com alguns desafios. Alguns conceitos culturais e religiosos pré-definidos sobre a mulher não combinam comigo. Nem os restritos códigos não-oficiais de conduta e vestuário. Sem mencionar o constante assédio sexual. Isso pode ser massacrante. Ter que estar o tempo todo se cobrindo, mesmo quando está um calor insuportável do lado de fora, ter que esconder a minha profissão de todos para não ser expulsa do meu apartamento (o que já me aconteceu antes), não poder me expressar livremente – todas essas coisas podem ser extremamente irritantes.

Sob todas as condições que descrevi, você poderia imaginar que uma comunidade de dança acolhedora seria o meio ideal para se apoiar. Mas, infelizmente, esse não é o caso. Apesar de haver aquelas almas verdadeiras que eu amo como se fossem minha família, a comunidade em geral é a antítese de acolhedora. Você descobre que conforme vai subindo na carreira, fofocas difamatórias e falsas acusações começam a proliferar. Muitos ou inventam fofocas sobre o que você fez para conseguir o seu emprego, ou se mostram muito inclinados em acreditar nas piores histórias sobre você. Alguns até tentam destruir a sua carreira. Todo mundo ama um Zé-ninguém. Mas poucos gostam realmente de alguém. E é por isso que você não sabe quem são seus verdadeiros amigos até que coisas boas aconteçam para você. Juro que parece que você está novamente na escola. Só que dessa vez eu já sei como me erguer e me manter acima dessas coisas de um jeito que eu não sabia aos 15 anos de idade. Não importa o que você diga ou faça, não importa como você dança, sempre vai ter alguém te odiando, criticando, ridicularizando e te colocando para baixo. Então você chega num ponto em que simplesmente para de se importar – um ponto no qual você se sente livre para ser quem você é sem se preocupar com o que os outros pensam. Pode parecer desagradável, mas também é libertador.

Contudo, não é sobre isso que quero falar. Isso vem com o pacote de dançar no Egito, e na verdade tem sido uma fonte para o meu crescimento pessoal. Pessoalmente, eu acho que o meu maior desafio não é nem a cultura nem o ambiente pouco amigável da dança. É algo mais interno do que isso. É algo que eu gosto de chamar de síndrome do “e se”. Eu amo o meu trabalho e sei o quão sortuda eu sou por tê-lo. Mas o questionamento do e se eu tivesse feito diferente me atormenta. Quer dizer, vamos encarar a verdade. Uma mulher comum não faria as decisões que eu fiz na vida. Uma pessoa comum não se desviaria tanto da estrada testada e aprovada para o sucesso para seguir um sonho vago de aprender a dançar num país do terceiro mundo. E apesar de muitas pessoas me louvarem por isso, talvez haja uma razão pela qual a estrada menos percorrida é menos percorrida. Levar uma vida não-convencional pode ser divertido, mas significa se colocar numa vida feita de incertezas e improvisos. E não quero dizer que isso acontece no palco. Eu não tenho mais uma “coreografia” para a vida como costumava ter. Eu abandonei isso quatro anos atrás. Eu troquei os ensaios pela “vida real”. Estou apenas vivendo a vida, um dia de cada vez. Boêmia. Certamente não é a vida que imaginei para mim mesma. E muito assustadora.

Hoje em dia, com todo o sofrimento que acontece no mundo, começo a me sentir culpada por ter o trabalho dos meus sonhos. Tem gente lutando para conseguir colocar comida na mesa, e pessoas pelo mundo todo dando as suas vidas pela liberdade. Uma delas era amiga minha, e fez isso recentemente na Síria. E aqui estou eu, dançando. Celebrando. O quê, eu não sei. Mas as pessoas dizem que dança é celebração. Então isso começa a parecer errado. Um pouco egoísta... Sem sentido... Vazio.


O que quer que seja que eu estou passando, espero sinceramente que seja temporário, e que eu saia dessa. Me esforcei demais em lançar a minha carreira só para desistir porque acho que dançar é “haram”, apesar de ser por motivos próprios. (Engraçado eu ter mais medo de mim mesma do que da Irmandade Muçulmana proibir a dança!) Se não for mais nada, a forma como estou me sentindo é a prova de que estou vivendo um sonho. Talvez não “O” sonho, mas um sonho num sentido de que tudo o que acontece, seja bom ou ruim, é maior do que a vida. E nos dá essa sensação de irrealidade. Lá no fundo, tem uma parte de mim que gosta disso. Talvez seja por isso que estou rezando para não acordar tão cedo.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Livro do Mês: A Ponte das Turquesas


Ainda no clima de sugerir livros diferentes (cansei um pouco de sugerir apenas livros de literatura ou que falem sobre o Egito), vamos aproveitar o final da novela Salve Jorge e falar sobre a Turquia!

A Ponte das Turquesas foi o livro que me convenceu a escolher a Turquia como destino para a minha lua de mel em 2012 e que virou o diário de viagem que vocês podem ler aqui. Escrito pela historiadora brasileira  Fernanda de Camargo-Moro, o livro é um misto de memórias, relatos de viagem, história e livro de culinária, e de quebra ainda consegue apresentar Istambul como um lugar mágico, cheio de mistérios e de coisas interessantes para descobrir (o que é uma descrição muito realista, diga-se de passagem).

Capa da edição disponível nas melhores livrarias
É engraçado quando começamos a estudar o mundo árabe como às vezes esquecemos dessa cidade tão importante na história mundial, afinal não é qualquer lugar que pode dizer que tem raízes clássicas gregas, resquícios romanos e cristãos e mais tarde ainda virou a capital do Império Otomano, que é muçulmano. É tanta informação e tanta história, importante tanto para o Ocidente quanto para o Oriente, que é difícil acreditar que a autora conseguiu resumir tudo isso num só livro.

E que livro! Além de ser bem escrito (confesso que fiquei receosa por conta de traumas com livros de história soporíferos na época da escola), ele traz histórias pessoais interessantes, e inclui não só a história da cidade, mas também da gastronomia ali presente! É de ficar com água na boca! E como babamos durante essa leitura, se não é com as receitas, é com as belíssimas descrições de Istambul, que faz jus aos elogios quando pisamos os pés por lá e vemos essa jóia da arquitetura ao vivo.

Fica a dica de uma leitura leve, diferente, informativa e cativante :-)

E se alguém fizer uma receita desse livro, por favor me chame!!!!

Vocês podem ver a resenha original do livro aqui.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Kisses from Kairo - Sentimentos sobre Sentimento




Sábado, 4 de agosto de 2012


Por Luna do Cairo
Traduzido por Lalitha   


Vamos encarar. Nós, bailarinas estrangeiras, somos muito pressionadas. Nós não só temos que ser lindas, mas temos que dançar da forma mais egípcia possível. Algumas chegam mais perto do que outras, mas nenhuma de nós chega na casa dos 100%. Pessoalmente, eu acho que é impossível. Ser egípcia é uma dessas coisas com a qual ou você nasce com ou sem. Não importa o quanto você faça imersão na cultura ou quão bem você fale o árabe, nunca seremos tão egípcias quanto as egípcias. E, claro, nunca seremos mais egípcias do que uma. :) Não que ser egípcia seja o objetivo, ou que não ser seja o fim do mundo. Nossa “desvantagem”, no entanto, é sermos sempre comparadas às bailarinas egípcias. E um dos pontos de comparação é o sentimento.

“Sentimento” é uma dessas palavras que não tem um significado real. Mesmo assim, a usamos o tempo todo para se referir a um conceito vago do que é egípcio na dança. Não podemos definir exatamente o que é; é a parte da dança que não pode ser definida, quantificada, calculada ou ensinada. Mas de alguma forma, nós reconhecemos quando vemos. Ainda mais interessante, sentimento é o que muitas bailarinas egípcias (dizem que) têm, e que nós, não-egípcias, nos esforçamos por obter.

Dado que sentimento é um conceito tão vago, achei que seria divertido fazer uma lista das minhas idéias sobre isso – sobre o que é, e o que não é. Mantenham em mente que essas são as minhas idéias subjetivas baseadas na experiência e na observação. Elas são, portanto, discutíveis. Existe mais de uma forma certa de entender as coisas, então você não precisa concordar com tudo o que eu escrevo. E isso não significa que uma de nós está errada.

Quando os egípcios falam de sentimento, eles frequentemente afirmam que é o falta às bailarinas estrangeiras. Eles dizem que nós temos uma técnica ótima, mas que nossa dança é mecânica e chata. Eles acham que muitas de nós não têm essa essência – esse espírito característico da dança oriental. Eles não sabem se é porque nós não entendemos as letras ou a instrumentalidade árabes, ou porque não somos egípcias. Enquanto não concordamos que falta sentimento a todas, eu acredito que para muitas de nós é um pouco das duas coisas.

O sentimento surge quando uma bailarina educada está fisicamente, intelectualmente, e emocionalmente em sintonia com a música, e consegue transmitir isso para o público. Eu frisei o educada porque essa conexão só acontece quando nós adquirimos um conhecimento profundo sobre a dança. Quando dominamos a técnica, entendemos a instrumentalidade árabe, e compreendemos a letra da música. Quando sabemos que tipos de movimentos combinam com cada instrumento. Quando nos tornamos intimamente familiarizadas com as origens culturais da dança. Quando conhecemos todas as regras e sabemos quando podemos quebrá-las. Quando alcançamos esse nível de conhecimento, isso se reflete na nossa dança. Mas o que é isso exatamente?

Para mim, sentimento é, antes de qualquer coisa, a forma como a bailarina executa os movimentos. Uma questão de estilo, se você quiser colocar assim. Dependendo da energia por trás, um movimento pode parecer turco, egípcio, tipo hip-hop, ou parecido com nada. Exatamente o mesmo movimento, com ênfase diferente, logo um sentimento diferente. É como se fosse um sotaque, se pensarmos em línguas estrangeiras. Nos Estados Unidos, por exemplo, nos lugares onde há muitos imigrantes não é incomum escutarmos algumas palavras carregadas em sotaque indiano, latino ou asiático. Apesar de todos falarmos a mesma língua, o inglês de cada grupo étnico tem um som distinto, ou um sentimento. E isso não é uma coisa ruim.

O mesmo se aplica à dança. Quando eu comecei a fazer aulas em Nova Iorque, uma das minhas professoras me disse que a minha dança não parecia (i.e. não tinha o “sentimento”) do Oriente Médio (pensando agora, nem a dela :P). Claro, eu estava fazendo todos os movimentos corretamente, mas a forma como eu fazia os movimentos não era muito oriental, muito menos egípcia. Os meus braços, que eu mantinha extremamente estendidos, estavam mais apropriados para direcionamento do trânsito do que para a dança do ventre. Meus movimentos de quadril eram tão grandes, perfeitos e violentos que eles pareceriam mais de hip-hop do que de dança do ventre. Vale dizer que eu tinha estudado no passado um pouco de hip-hop e de jazz, então era daí que vinha o “sotaque” com o qual eu falava a língua da dança egípcia. Desde então eu aprendi a ser mais suave e fazer os meus movimentos menores. Livrei-me do meu sotaque, por assim dizer. :) E eu aprendi que os movimentos de quadril não precisam ser tão prefeitos ao ponto de parecerem robóticos.

O sentimento é mais do que uma questão de estilo, entretanto. Parte do que queremos dizer quando dizemos que uma bailarina dança com sentimento é que ela interpreta corretamente uma música. Em outras palavras, que ela tem um bom ouvido. Ela sabe combinar os movimentos com os instrumentos. Ela sabe que o acordeom, por exemplo, pede que ela faça movimentos sinuosos, como oitos e ondulações. E que o derbake obviamente pede movimentos mais percussivos. Mais importante, ela sabe o que fazer quando tem diversos instrumentos tocando ao mesmo tempo... como, por exemplo, o ritmo se acelera durante um solo de acordeom. Uma bailarina com uma boa percepção vai saber quando ignorar o derbake, quando ignorar o acordeom, e quando se utilizar de ambos. E isso é algo que vem com a experiência.

Tem outro aspecto nessa história toda de sentimento que eu quero mencionar, principalmente porque parece haver todo um desentendimento sobre o assunto. EMOÇÃO. Como todos já puderam reparar, é muito comum para as bailarinas egípcias de hoje em dia transmitirem a emoção das letras com expressões faciais e gestos com as mãos. Também é muito comum que as estrangeiras as imitem. Às vezes funciona. Mas é muito frequente, já que a maioria das bailarinas não-egípcias não entende as letras em árabe sem uma tradução, que a imitação delas seja exatamente isso – uma imitação. E pode parecer falso e exagerado.

Eu tenho reparado muito nisso recentemente, quanto mais eu tenho dado workshops fora do Egito e visto performances das alunas. Esse é um problema que as bailarinas têm em qualquer lugar, mas especialmente na Europa, onde a cultura da dança do ventre é muito competitiva. Em qualquer final de semana, você pode encontrar competições acontecendo por todo o continente. Isso resulta em bailarinas lutando para se sobrepor às outras de qualquer forma. E uma das formas de fazer isso é fazendo expressões extremamente exageradas de alegria, dor ou qualquer outra emoção que as letras estejam transmitindo. Ou fazendo gestos extremamente exagerados. É como se elas achassem que vão acertar no “sentimento” desse jeito.

Esse é o problema. Existe uma diferença entre sentimento e atuação. Sentimento se trata principalmente de interpretação musical. E apesar de às vezes incluir a expressão da emoção, não se trata de fazer mímicas no palco, ou sobre provar para o público (ou a banca) que você entende árabe. Enquanto é sempre bom conhecer a letra ou até mesmo cantar junto se você conseguir, fazer caretas durante toda a música para provar que você entende árabe é desnecessário. Fazer demais de uma coisa boa é ruim.

Tem uma performance que eu nunca vou esquecer. Foi de uma bailarina européia num festival egípcio há alguns anos atrás. A moça estava dançando uma música sobre amor não correspondido, e ficava fazendo repetidamente movimentos violentos de esfaquear... como se ela estivesse se apunhalando nos quadris e no coração. Ela então se jogou no palco e bateu no chão com a mão ao som da palavra “bahibak”, que significa “eu te amo”. Ela definitivamente me deixou impressionada, mas pelas razões erradas. Eu me senti como se tivesse sido atacada – como se ela tivesse me forçado a sentir o que ela estava sentindo. Uma coisa é expressar a emoção da música. Outra coisa é subir no palco e FORÇAR AS PESSOAS A SENTIR CARAMBA! Que era exatamente o que ela estava fazendo. :)

Eu já vi muitas performances assim. E eu saio delas pensando, se ela tivesse reduzido uns 50%, dançado mais e atuado menos, ela teria sido convincente.

A cultura da competição não é a única culpada pela atuação exagerada. Alguns professores de dança egípcios muito famosos também têm culpa. Nos últimos anos, tem havido uma tendência cada vez maior de vários professores egípcios de influência de fazerem caras e bocas durante toda a música. Isso está acontecendo porque eles têm escolhido músicas pops mais novas que tem composição e instrumentação inferiores aos clássicos mais antigos, e que não deveriam ser dançadas! Porque essas músicas não têm nenhuma complexidade musical, não tem mudança de ritmo, não têm instrumentos de corda, a única coisa que dá para fazer é seguir as letras com mímicas e caras e bocas.

É triste que isso esteja se tornando tão comum. Mas parece ser o resultado da preguiça e da falta de cuidado que surgem quando professores estrelas se voltam exclusivamente para o comércio. Quando isso acontece, eles param de pensar e de se esforçar na arte. Eles simplesmente pegam o último sucesso pop, fazem uma coreografia mais ou menos cheia de caras e bocas, e ensinam em workshops por todo o mundo. E então chamam isso de “sentimento”. Não é à toa que todos nós começamos a fazer caretas! Não só estamos imitando as bailarinas egípcias, mas estamos sendo ensinadas a fazer isso por professores egípcios que passamos a respeitar e admirar!

Então, apenas para deixar claro: só porque uma música é nova ou rápida, não quer dizer que ela deva ser dançada. E não é porque alguém que sabe mais do que você está apresentando um lixo, que devemos aceitar cegamente. Mas é exatamente isso que está acontecendo. Justamente porque muitas de nós, compreensivelmente, acreditam que qualquer coisa que um egípcio faça está certa, é que nós estamos seguindo essa tendência e levando a novos extremos. Que, é o que eu queria dizer, não é a definição de sentimento.

Do lado oposto do espectro, estão aquelas egípcias que sentem sim – talvez um pouco demais. :) Na verdade, às vezes elas sentem a emoção da música de forma tão intensa que elas esquecem de dançar! Elas cantam e gritam e fazem gestos enlouquecidos e jogam um shimmie aqui e outro ali... eu juro que às vezes eu sinto como se estivesse assistindo a alguém bêbedo no karaokê! :)~ Isso pode ser tão engraçado quanto esquisito ao mesmo tempo. Engraçado porque elas esquecem de si mesmas e de que estão num palco. Esquisito porque elas desnudam completamente as suas almas para o público. E, acredite em mim, você não quer estar em nenhum desses papéis. :) Como público, você não quer ser sujeitado a isso. Como bailarina, você não quer estar na posição onde toda a sua disposição psicológica está às vistas do público. É informação demais, e uma invasão ao direito de privacidade do público. E eu não quero dizer à privacidade deles, quero dizer a nossa. Sim, o público tem o direito à privacidade do artista.

Pense sobre o assunto. Não queremos assustar alguém da platéia, ou mostrar a eles nossas partes íntimas – mais por consideração a eles do que por nós mesmas. Então porque iríamos mostrar a eles a parte mais íntima, mais privada, da nossa alma? Isso se chama nudez psicológica, e é provável que o seu público não queira ver isso.

Pessoalmente, quando me confronto com essa situação, eu me pego psicanalisando a bailarina. Eu começo a tentar entendê-la, e a imaginar todo o tipo de coisa sobre a sua personalidade, os seus vícios, sua vida, e diversas outras coisas que não são da minha conta. E é por isso que nós, como artistas, não deveríamos colocar nosso público nessa posição. Nós estamos lá para deleitar o nosso público com uma boa dança, não para começar uma sessão pessoal de meditação/busca da alma com nós mesmas. O palco é sobre eles, não nós. Não só esses sentimentos pessoais podem fazer o seu público ficar desconfortável, como tiram de nós todo o mistério. E eu não quero dizer apenas o mistério físico, tampouco, apesar dele também ser importante. Eu quero dizer o mistério emocional, psicológico. Assim que perdemos o nosso mistério, não há mais razão para o público voltar e nos assistir novamente. Eles já viram tudo. Não há mais nada para eles descobrirem.

Eu acho que o objetivo desse post era dizer que quando estamos no palco, nós estamos atrás do volante. Nós podemos e devemos controlar o quanto de nós mesmas nós mostramos para o público. Lembre-se, como em tudo, muito de qualquer coisa nunca pode ser bom. Isso também se aplica ao sentimento e à atuação. O truque para dançar com sentimento é atingir um equilíbrio. Nós devemos ser capazes de expressar tanto a música quanto a letra de uma forma que seja verdadeira para nós mesmas, mas sem exagerar. Isso não só vai tornar a nossa dança mais genuína, mas também mais convincente.

Como sempre, comentários, questionamentos ou reclamações são bem-vindos. :)


sábado, 27 de abril de 2013

A realidade e o futuro do feminismo islâmico


Texto de Rachelle Fawcett. Tradução de Simone Andrea, publicada originalmente no site Blogueiras Feministas.
Originalmente publicado com o título: The reality and future of Islamic feminism, no site Aljazeera.

No que consiste um feminismo islâmico e para onde vai?
Em alguns círculos muçulmanos, a palavra com “f” (feminismo) levanta tanto tensões quanto sobrancelhas, imediatamente evoca representações de mulheres dominadoras, raivosas e que odeiam a família. Mas, como outras imagens que acodem à mente com a menção de qualquer rótulo – inclusive a imagem da mulher oprimida que frequentemente se vislumbra quando alguém escuta a palavra “muçulmana” – essa reação visceral está baseada em estereótipos que podem ser verdadeiros num contexto social e histórico muito específico, mas não fazem sentido quando comparados com uma realidade mais ampla, portanto, não justifica a hostilidade que desencadeia. Enquanto a retórica popular islâmica gaba-se da libertação da mulher com o surgimento do Islã há mais de 1.400 anos atrás, a repetição contínua dessa história nada faz para aliviar o sofrimento das mulheres hoje, exceto voltando ao princípio, a partir do texto fundador do Islã, o Corão.
Mas o que é o “feminismo islâmico”, como se desenvolve e quais são os seus atores?Dra. Margot Badran, formada pelas universidades de al-Azhar e de Oxford, define o “feminismo islâmico” nestes termos:
… uma definição concisa do feminismo islâmico é colhida dos escritos e do trabalho de protagonistas muçulmanas por meio de discursos e práticas feministas, que extraem sua interpretação e missão do Corão, buscando direitos e justiça dentro do contexto de igualdade de gênero para mulheres e homens na totalidade de sua existência. O feminismo islâmico explica a ideia de igualdade de gênero como algo que faz parte da noção corânica de igualdade de todos os insan (seres humanos) e reclama a implementação da igualdade de gênero no Estado, nas instituições civis, no cotidiano. Ele rejeita a dicotomia público/privado (a propósito ausente na jurisprudência islâmica dos primórdios, ou fiqh) conceituando uma umma holística na qual os ideais do Corão operam em todos os espaços.
Esta é uma distinção importante. “Feminismo islâmico” não é simplesmente um feminismo nascido em culturas islâmicas, mas sim um que encaixa a teologia islâmica nos textos e nas tradições canônicas. Nitidamente, um feminismo “islâmico”, na sua essência, inspirado no conceito corânico de igualdade de todos os seres humanos e que insiste na aplicação de sua teologia na vida diária. Derivada dessa definição básica, encontramos uma pletora de diferentes interpretações, movimentos, projetos, personalidades, criando feminismos que têm diversos rostos. Frequentemente, questões femininas são trivializadas em usar ou não o véu, ou apertar as mãos de homens que não são da família, e, enquanto questões mais amplas, como violência doméstica, estão sendo vigorosamente debatidas, a questão central – o que a “igualdade” significa e como se expressa – prossegue largamente ignorada. Por exemplo, a violência doméstica é errada porque causa dor, sofrimento e é injusta, mas a crença central no direito do homem mandar na mulher nem sempre é parte dessa discussão.

Ensinando o que conta
Este ano, o tema da 3ª Conferencia Anual de Estudantes de Graduação em Estudos Islâmicos foi “Reconstituindo a Autoridade Feminina: a Participação da Mulher na Transmissão e na Produção do Conhecimento Islâmico”, foi nesse foro que o futuro do feminismo islâmico esteve bem representado.
Nenhum workshop foi desperdiçado em tecnicalismos sobre o véu ou em discussões desgastadas acerca de o Islã liberar as mulheres com a proibição de infanticídios de meninas ou o direito das mulheres à herança (que não foi totalmente obedecido nem no tempo de Maomé). Ao invés disso, os workshops e os estudantes que os apresentaram demonstraram a complexidade e a diveersidade dos movimentos de mulheres, novos e antigos, no mundo muçulmano. Em “O Milagre de Bibi Fatima: Consagração e Autoridade Feminina”, apresentado por Summar Shoaib, mulheres transmitiam histórias de Fatima, a filha do Profeta Maomé, aparecendo e ajudando outras mulheres com preces especiais. Em tais contextos, mulheres passam adiante o conhecimento religioso numa tradição matrilinear que funciona como um canal para o ativismo religioso. Contar histórias torna-se um meio de força que proporciona uma base e um apoio para as mulheres, através dos laços de parentesco forjados pelo ato de contar histórias além da tradição que são passadas adiante.
Os principais palestrantes: Amina WadudKhaled Abou el FadlKathleen Moore e Asma Sayeed falaram sobre a inclusão como direito e necessidade para a autoridade moral da pessoa e a história das mulheres nas tradições jurídicas islâmicas. O Islã “puro e simples” no qual as questões femininas são amenizadas com desculpas ou simplificadas como terciárias ou subalternas não foi encontrado em lugar algum. Pelo contrário, estudantes e professores recordaram a história que sempre se menciona somente de passagem, ou através de poucas figuras históricas chaves, retórica clichê e argumentos simplistas, não-históricos. Atendo-se aos padrões acadêmicos, este grupo diversificado de estudantes, através de sua busca intelectual do passado e do discurso voltado ao futuro, foi uma parte pequena, mas importante, da linhagem contínua da sabedoria feminina no Islã.
Eles eram exemplos do conjunto misto de “feminismos islâmicos” no Mundo islâmico. Mulheres em todos estes contextos estão encontrando as tradições baseadas em suas respectivas culturas, necessidades, prioridades e recursos, criando um retrato bem acabado do movimento global no qual as mulheres criam seu próprio caminho para o conhecimento e avançam com ele. Em alguns contextos, isto significa discutir direitos fundamentais como libertação da violência, enquanto em outros as mulheres conquistam e encontram seu próprio espaço para desafiar os dogmas tradicionais, redescobrindo a história feminina do Islã e o lugar para o discurso futuro, também em outros contextos, pela criação de um espaço inclusivo para rezar, adorar e estar com Deus. Um exemplo é o de Ani Zonneneveld, musicista e co-fundadora do “Muçulmanos por Valores Progressistas”, que promove paz e justiça social, através da criação de mesquitas inclusivas e da expressão de ideais igualitários através da música islâmica como meio de adoração.
Enquanto as questões das mulheres no mundo islâmico estão sendo debatidas, a questão central do que significa “igualdade” e como se expressa continuam largamente ignoradas. Foto de Mohamed Omar/EPA.
Enquanto as questões das mulheres no mundo islâmico estão sendo debatidas, a questão central
do que significa “igualdade” e como se expressa continuam largamente ignoradas. Foto de Mohamed Omar/EPA.
Impactando não apenas mulheres, mas a sociedade em larga escala
Um feminismo islâmico é, presumidamente, um feminismo intrinsecamente dotado de competência (trans)cultural, uma vez que o Islã, em geral, é uma tradição profundamente diversificada e permite flexibilidade, dependendo do contexto, desde que o núcleo essencial da ética islâmica não seja violada. Como o cerne dessa ética se define pode variar de acordo com o contexto, mas as tentativas de definição irão ajudar a espalhar uma discussão mais ampla, que possa eliminar as desculpas e discutir as causas fundamentais. É em tais debates que as feministas islâmicas, mais do que acreditar na tradição ou num feminismo proliferado – como especificamente o feminismo ocidental – insistem num retorno ao Corão e no emprego de princípios de análise contextual e racional, que questionem crenças tradicionalmente aceitas acerca das mulheres, através da retórica pela qual elas se formarão.
Pode ser dito que a maior tarefa do feminismo islâmico é separar cultura de religião. Esta é, talvez, a razão principal da hostilidade e raiva com que esse movimento se depara. Em alguns contextos muçulmanos, desafios às crenças tradicionalmente baseadas na autoridade não encontram um diálogo inteligente e bem informado, que esteja aberto à busca contínua da verdade e justiça, mas sim com a suspeita e hostilidade daqueles que procuram declarar um Islã único e “verdadeiro”, dependente da estrutura social apoiada na hierarquia de gênero. É sociologia elementar entender que as mulheres são frequentemente as fundações da cultura, porque elas são as primeiras professoras e mantêm laços estreitos com a próxima geração. Daí, a “estabilidade” da sociedade é frequentemente associada com a permanência das mulheres em seus lugares “próprios e naturais”.
Mas, esta “estabilidade” não é a estabilidade da sociedade, mas sim, da hierarquia e, portanto, da autoridade. O feminismo islâmico, como discutido antes, não está em busca da hierarquia com as mulheres no seu topo, ao contrário, está em busca de uma estrutura social igualitária em que caráter, bom trabalho e piedade – não gênero – sejam os fatores decisivos da autoridade social. Ademais, como Khaled Abou el Fadiargumentou em sua exposição na conferncia de Santa Barbara, cada ser humano tem direito a uma autoridade moral que não pode ser realizada se é proibido de ter uma vida plena. O argumento hierárquico é que as mulheres teriam uma “vida plena” somente se aceitassem seu “lugar natural”, mas esse argumento omite a definição, e portanto as necessidades, o talento e as aspirações (que tanto podem ser tornar-se uma astronauta ou uma mãe de 10 crianças) das próprias mulheres. Uma “vida plena” não pode ser definida para elas.
Numa certa época da História islâmica não foi incomum ver mulheres muçulmanas instruídas ou devotadas, e a presença dessas mulheres não significava, necessariamente, que elas concordassem com os papeis das mulheres, assim como não concordamos hoje, mas sua existência criou uma teologia mais equilibrada e acessível, com elevado grau de credibilidade. Através da recuperação dessa história, as mulheres encontram sua base e suporte num discurso feminino islâmico.
Ademais, as lutas com foco nas mulheres não impactam somente nelas, mas na sociedade como um todo, e esta é a arena na qual os maiores abusos da teologia islâmica são mais evidentes. O autoritarismo do Islã puritano, que fez surgirem movimentos como o Talibã, definiu como sua missão especial controlar totalmente as mulheres, como vimos (acontecer) com Malala Yousafzai, que foi baleada por promover a educação de todas as crianças, especialmente meninas. As mesmas estruturas e princípios nucleares utilizados para oprimir as mulheres, são utilizados para promover o terrorismo e o ódio em nome do Islã. Dessa forma, o bem que advém de combater e desafiar esses estruturas vai muito além das mulheres.

O impulso para o igualitarismo inclusivo
Algumas pessoas, como a organizadora da Conferência da Universidade da Califórnia, Samaneh Oladi, intuem que o ressurgimento das mulheres nos campos da história e da teologia islâmica acontece naturalmente, como um movimento de bases, no qual as próprias mulheres são os agentes da mudança.
Nesses movimentos de base, veem-se mulheres trabalhando nas comunidades e em contextos institucionais e sociais que utilizam a religião, mais do que uma compreensão secular de direitos humanos, como sua diretiva pela mudança. Aos poucos, isto vai mudando social e demograficamente, e cria o que é, na essência, a escada para um envolvimento teológico maior. Mas esta mudança também está acontecendo na política, como Margot Badran me explicou, uma vez que os Estados podem desempenhar um papel na articulação da transmissão, pelas mulheres, da sabedoria islâmica.
Para usar o exemplo dela, no inicio dos anos 60, quando o presidente egípcio Gamal Abdel Nasser forçou al-Azhar, a primeira universidade islâmica, a aceitar mulheres, foi um esforço para “dispersar” a instituição (torna-la mais secular, juntamente com outros esforços no mesmo sentido) e “abrir um racha” pela aceitação de mulheres, mas, ao revés, criou uma oportunidade para que mulheres tivessem acesso a formas tradicionais de instrução islâmica que acabaram por levar as mulheres estudantes à universidade. Da mesma forma, com a queda gradual dos regimes autoritários em alguns países de maioria muçulmana, as mulheres estão voltando para a escola e desafiando o discurso que as oprimia. Isto faz surgirem organizações, legislação e esforços internacionais para libertar as mulheres da opressão através da educação, dos serviços de saúde e de ajuda econômica. No Ocidente, em Estados que não podem calar a autoridade religiosa feminina, mulheres envolvidas em vários esforços – desde a criação de abrigos para muçulmanas, como Muslimat al-Nisa em Nova Iorque, até o apoio a imans femininos – encontram oposição social e institucional, mas prosseguem no mesmo padrão de empregar os textos e a tradição teológica islâmica para rebater argumentos baseados na religião de que as mulheres devam ser, em qualquer via possível, subordinadas aos homens.
Evidente que as realidades do que é o “feminismo islâmico” e como ele é vivido são muito complexas, e é como devem ser. A realidade do feminismo islâmico como um movimento global, no qual as mulheres voltam-se ao Corão e as tradições proféticas para defender que as mulheres são seres humanos por inteiro e iguais aos seus parceiros masculinos. Como elas se expressam e até onde isso as levará dependerá das mulheres em seus contextos específicos.
Assim como se dá com as teorias feministas seculares, o que funciona para as muçulmanas do Sul da Califórnia, pode não funcionar no Afeganistão rural, e nem este, nem aquele há de ditar “feminismo” ao outro. O feminismo islâmico é um processo em desenvolvimento, no qual partimos do direito à vida e à autoridade moral e pessoal para irmos além. Podem haver algumas que se auto-intitulam “feministas islâmicas” e insistem na restruturação da hierarquia com as mulheres – em vez de com os homens – no topo, mas estas são minoria. Aliás, a hierarquia é intrinsecamente injusta e reestrutura-se melhor num igualitarismo inclusivo, que inclua não só as mulheres, mas todos os seres humanos invisíveis ou deixados de fora dos lugares islâmicos tradicionais.
Não precisamos de uma nova palavra para substituir “feminismo”, a fim de evitar a dificuldade automática que advém de estereótipos populares, do mesmo modo que seria igualmente incorreto buscar uma nova palavra para “muçulmano”; de preferência, permitamos-nos alcançar uma compreensão mais aberta e ampla do que é o feminismo islâmico, quem o constrói e o estrutura, e dos caminhos diversos e complexos percorridos, não apenas em benefício das próprias mulheres, mas de toda a humanidade.
Seja de forma orgânica ou política, ou por quaisquer outros meios, as mulheres estão reclamando seus espaços no discurso islâmico e mudando sua realidade, talvez através de uma tradição de contar histórias há muito estabelecida, ou mesmo criando mesquitas inclusivas, e algumas pelo retorno ao começo, o próprio Corão. No futuro, talvez o feminismo islâmico se depare com instituições sociais mais fortalecidas, além de recursos que apoiem as mulheres e o fim de desculpas esfarrapadas, mas, sobretudo, talvez vejamos o renascimento da sabedoria acadêmica feminina (que nunca foi totalmente destruída) no Islã, que una o texto à tradição, para continuamente buscar a justiça ao lado, e não acima, de nossos companheiros homens. Se este é o rumo para o qual estamos indo, então o futuro é claro também.
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Rachelle Fawcett está completando seu Mestrado* em Estudos Islâmicos no Seminário Hartford, viveu no Iêmen e no Egito, e escreve, fala e faz apresentações sobre o feminismo islâmico, competência (trans)cultural, pluralismo e teologia crítica.
* No texto original, MA, sigla que significa, literalmente, “Mestre em Artes”. A expressão nada tem a ver com “artes” em sentido estrito. No sistema educacional anglo-americano, um diploma em “artes” significa que o aluno está focado numa ampla area de aprendizado e discussão, ao passo que um diploma em “ciência” implica numa compreensão profunda e técnica da matéria estudada.
Simone Andrea é autora de “Direitos da Filha e Direitos Fundamentais da Mulher” (Ed. Juruá) e escreve no blog Simone Andrea.