sábado, 27 de abril de 2013

A realidade e o futuro do feminismo islâmico


Texto de Rachelle Fawcett. Tradução de Simone Andrea, publicada originalmente no site Blogueiras Feministas.
Originalmente publicado com o título: The reality and future of Islamic feminism, no site Aljazeera.

No que consiste um feminismo islâmico e para onde vai?
Em alguns círculos muçulmanos, a palavra com “f” (feminismo) levanta tanto tensões quanto sobrancelhas, imediatamente evoca representações de mulheres dominadoras, raivosas e que odeiam a família. Mas, como outras imagens que acodem à mente com a menção de qualquer rótulo – inclusive a imagem da mulher oprimida que frequentemente se vislumbra quando alguém escuta a palavra “muçulmana” – essa reação visceral está baseada em estereótipos que podem ser verdadeiros num contexto social e histórico muito específico, mas não fazem sentido quando comparados com uma realidade mais ampla, portanto, não justifica a hostilidade que desencadeia. Enquanto a retórica popular islâmica gaba-se da libertação da mulher com o surgimento do Islã há mais de 1.400 anos atrás, a repetição contínua dessa história nada faz para aliviar o sofrimento das mulheres hoje, exceto voltando ao princípio, a partir do texto fundador do Islã, o Corão.
Mas o que é o “feminismo islâmico”, como se desenvolve e quais são os seus atores?Dra. Margot Badran, formada pelas universidades de al-Azhar e de Oxford, define o “feminismo islâmico” nestes termos:
… uma definição concisa do feminismo islâmico é colhida dos escritos e do trabalho de protagonistas muçulmanas por meio de discursos e práticas feministas, que extraem sua interpretação e missão do Corão, buscando direitos e justiça dentro do contexto de igualdade de gênero para mulheres e homens na totalidade de sua existência. O feminismo islâmico explica a ideia de igualdade de gênero como algo que faz parte da noção corânica de igualdade de todos os insan (seres humanos) e reclama a implementação da igualdade de gênero no Estado, nas instituições civis, no cotidiano. Ele rejeita a dicotomia público/privado (a propósito ausente na jurisprudência islâmica dos primórdios, ou fiqh) conceituando uma umma holística na qual os ideais do Corão operam em todos os espaços.
Esta é uma distinção importante. “Feminismo islâmico” não é simplesmente um feminismo nascido em culturas islâmicas, mas sim um que encaixa a teologia islâmica nos textos e nas tradições canônicas. Nitidamente, um feminismo “islâmico”, na sua essência, inspirado no conceito corânico de igualdade de todos os seres humanos e que insiste na aplicação de sua teologia na vida diária. Derivada dessa definição básica, encontramos uma pletora de diferentes interpretações, movimentos, projetos, personalidades, criando feminismos que têm diversos rostos. Frequentemente, questões femininas são trivializadas em usar ou não o véu, ou apertar as mãos de homens que não são da família, e, enquanto questões mais amplas, como violência doméstica, estão sendo vigorosamente debatidas, a questão central – o que a “igualdade” significa e como se expressa – prossegue largamente ignorada. Por exemplo, a violência doméstica é errada porque causa dor, sofrimento e é injusta, mas a crença central no direito do homem mandar na mulher nem sempre é parte dessa discussão.

Ensinando o que conta
Este ano, o tema da 3ª Conferencia Anual de Estudantes de Graduação em Estudos Islâmicos foi “Reconstituindo a Autoridade Feminina: a Participação da Mulher na Transmissão e na Produção do Conhecimento Islâmico”, foi nesse foro que o futuro do feminismo islâmico esteve bem representado.
Nenhum workshop foi desperdiçado em tecnicalismos sobre o véu ou em discussões desgastadas acerca de o Islã liberar as mulheres com a proibição de infanticídios de meninas ou o direito das mulheres à herança (que não foi totalmente obedecido nem no tempo de Maomé). Ao invés disso, os workshops e os estudantes que os apresentaram demonstraram a complexidade e a diveersidade dos movimentos de mulheres, novos e antigos, no mundo muçulmano. Em “O Milagre de Bibi Fatima: Consagração e Autoridade Feminina”, apresentado por Summar Shoaib, mulheres transmitiam histórias de Fatima, a filha do Profeta Maomé, aparecendo e ajudando outras mulheres com preces especiais. Em tais contextos, mulheres passam adiante o conhecimento religioso numa tradição matrilinear que funciona como um canal para o ativismo religioso. Contar histórias torna-se um meio de força que proporciona uma base e um apoio para as mulheres, através dos laços de parentesco forjados pelo ato de contar histórias além da tradição que são passadas adiante.
Os principais palestrantes: Amina WadudKhaled Abou el FadlKathleen Moore e Asma Sayeed falaram sobre a inclusão como direito e necessidade para a autoridade moral da pessoa e a história das mulheres nas tradições jurídicas islâmicas. O Islã “puro e simples” no qual as questões femininas são amenizadas com desculpas ou simplificadas como terciárias ou subalternas não foi encontrado em lugar algum. Pelo contrário, estudantes e professores recordaram a história que sempre se menciona somente de passagem, ou através de poucas figuras históricas chaves, retórica clichê e argumentos simplistas, não-históricos. Atendo-se aos padrões acadêmicos, este grupo diversificado de estudantes, através de sua busca intelectual do passado e do discurso voltado ao futuro, foi uma parte pequena, mas importante, da linhagem contínua da sabedoria feminina no Islã.
Eles eram exemplos do conjunto misto de “feminismos islâmicos” no Mundo islâmico. Mulheres em todos estes contextos estão encontrando as tradições baseadas em suas respectivas culturas, necessidades, prioridades e recursos, criando um retrato bem acabado do movimento global no qual as mulheres criam seu próprio caminho para o conhecimento e avançam com ele. Em alguns contextos, isto significa discutir direitos fundamentais como libertação da violência, enquanto em outros as mulheres conquistam e encontram seu próprio espaço para desafiar os dogmas tradicionais, redescobrindo a história feminina do Islã e o lugar para o discurso futuro, também em outros contextos, pela criação de um espaço inclusivo para rezar, adorar e estar com Deus. Um exemplo é o de Ani Zonneneveld, musicista e co-fundadora do “Muçulmanos por Valores Progressistas”, que promove paz e justiça social, através da criação de mesquitas inclusivas e da expressão de ideais igualitários através da música islâmica como meio de adoração.
Enquanto as questões das mulheres no mundo islâmico estão sendo debatidas, a questão central do que significa “igualdade” e como se expressa continuam largamente ignoradas. Foto de Mohamed Omar/EPA.
Enquanto as questões das mulheres no mundo islâmico estão sendo debatidas, a questão central
do que significa “igualdade” e como se expressa continuam largamente ignoradas. Foto de Mohamed Omar/EPA.
Impactando não apenas mulheres, mas a sociedade em larga escala
Um feminismo islâmico é, presumidamente, um feminismo intrinsecamente dotado de competência (trans)cultural, uma vez que o Islã, em geral, é uma tradição profundamente diversificada e permite flexibilidade, dependendo do contexto, desde que o núcleo essencial da ética islâmica não seja violada. Como o cerne dessa ética se define pode variar de acordo com o contexto, mas as tentativas de definição irão ajudar a espalhar uma discussão mais ampla, que possa eliminar as desculpas e discutir as causas fundamentais. É em tais debates que as feministas islâmicas, mais do que acreditar na tradição ou num feminismo proliferado – como especificamente o feminismo ocidental – insistem num retorno ao Corão e no emprego de princípios de análise contextual e racional, que questionem crenças tradicionalmente aceitas acerca das mulheres, através da retórica pela qual elas se formarão.
Pode ser dito que a maior tarefa do feminismo islâmico é separar cultura de religião. Esta é, talvez, a razão principal da hostilidade e raiva com que esse movimento se depara. Em alguns contextos muçulmanos, desafios às crenças tradicionalmente baseadas na autoridade não encontram um diálogo inteligente e bem informado, que esteja aberto à busca contínua da verdade e justiça, mas sim com a suspeita e hostilidade daqueles que procuram declarar um Islã único e “verdadeiro”, dependente da estrutura social apoiada na hierarquia de gênero. É sociologia elementar entender que as mulheres são frequentemente as fundações da cultura, porque elas são as primeiras professoras e mantêm laços estreitos com a próxima geração. Daí, a “estabilidade” da sociedade é frequentemente associada com a permanência das mulheres em seus lugares “próprios e naturais”.
Mas, esta “estabilidade” não é a estabilidade da sociedade, mas sim, da hierarquia e, portanto, da autoridade. O feminismo islâmico, como discutido antes, não está em busca da hierarquia com as mulheres no seu topo, ao contrário, está em busca de uma estrutura social igualitária em que caráter, bom trabalho e piedade – não gênero – sejam os fatores decisivos da autoridade social. Ademais, como Khaled Abou el Fadiargumentou em sua exposição na conferncia de Santa Barbara, cada ser humano tem direito a uma autoridade moral que não pode ser realizada se é proibido de ter uma vida plena. O argumento hierárquico é que as mulheres teriam uma “vida plena” somente se aceitassem seu “lugar natural”, mas esse argumento omite a definição, e portanto as necessidades, o talento e as aspirações (que tanto podem ser tornar-se uma astronauta ou uma mãe de 10 crianças) das próprias mulheres. Uma “vida plena” não pode ser definida para elas.
Numa certa época da História islâmica não foi incomum ver mulheres muçulmanas instruídas ou devotadas, e a presença dessas mulheres não significava, necessariamente, que elas concordassem com os papeis das mulheres, assim como não concordamos hoje, mas sua existência criou uma teologia mais equilibrada e acessível, com elevado grau de credibilidade. Através da recuperação dessa história, as mulheres encontram sua base e suporte num discurso feminino islâmico.
Ademais, as lutas com foco nas mulheres não impactam somente nelas, mas na sociedade como um todo, e esta é a arena na qual os maiores abusos da teologia islâmica são mais evidentes. O autoritarismo do Islã puritano, que fez surgirem movimentos como o Talibã, definiu como sua missão especial controlar totalmente as mulheres, como vimos (acontecer) com Malala Yousafzai, que foi baleada por promover a educação de todas as crianças, especialmente meninas. As mesmas estruturas e princípios nucleares utilizados para oprimir as mulheres, são utilizados para promover o terrorismo e o ódio em nome do Islã. Dessa forma, o bem que advém de combater e desafiar esses estruturas vai muito além das mulheres.

O impulso para o igualitarismo inclusivo
Algumas pessoas, como a organizadora da Conferência da Universidade da Califórnia, Samaneh Oladi, intuem que o ressurgimento das mulheres nos campos da história e da teologia islâmica acontece naturalmente, como um movimento de bases, no qual as próprias mulheres são os agentes da mudança.
Nesses movimentos de base, veem-se mulheres trabalhando nas comunidades e em contextos institucionais e sociais que utilizam a religião, mais do que uma compreensão secular de direitos humanos, como sua diretiva pela mudança. Aos poucos, isto vai mudando social e demograficamente, e cria o que é, na essência, a escada para um envolvimento teológico maior. Mas esta mudança também está acontecendo na política, como Margot Badran me explicou, uma vez que os Estados podem desempenhar um papel na articulação da transmissão, pelas mulheres, da sabedoria islâmica.
Para usar o exemplo dela, no inicio dos anos 60, quando o presidente egípcio Gamal Abdel Nasser forçou al-Azhar, a primeira universidade islâmica, a aceitar mulheres, foi um esforço para “dispersar” a instituição (torna-la mais secular, juntamente com outros esforços no mesmo sentido) e “abrir um racha” pela aceitação de mulheres, mas, ao revés, criou uma oportunidade para que mulheres tivessem acesso a formas tradicionais de instrução islâmica que acabaram por levar as mulheres estudantes à universidade. Da mesma forma, com a queda gradual dos regimes autoritários em alguns países de maioria muçulmana, as mulheres estão voltando para a escola e desafiando o discurso que as oprimia. Isto faz surgirem organizações, legislação e esforços internacionais para libertar as mulheres da opressão através da educação, dos serviços de saúde e de ajuda econômica. No Ocidente, em Estados que não podem calar a autoridade religiosa feminina, mulheres envolvidas em vários esforços – desde a criação de abrigos para muçulmanas, como Muslimat al-Nisa em Nova Iorque, até o apoio a imans femininos – encontram oposição social e institucional, mas prosseguem no mesmo padrão de empregar os textos e a tradição teológica islâmica para rebater argumentos baseados na religião de que as mulheres devam ser, em qualquer via possível, subordinadas aos homens.
Evidente que as realidades do que é o “feminismo islâmico” e como ele é vivido são muito complexas, e é como devem ser. A realidade do feminismo islâmico como um movimento global, no qual as mulheres voltam-se ao Corão e as tradições proféticas para defender que as mulheres são seres humanos por inteiro e iguais aos seus parceiros masculinos. Como elas se expressam e até onde isso as levará dependerá das mulheres em seus contextos específicos.
Assim como se dá com as teorias feministas seculares, o que funciona para as muçulmanas do Sul da Califórnia, pode não funcionar no Afeganistão rural, e nem este, nem aquele há de ditar “feminismo” ao outro. O feminismo islâmico é um processo em desenvolvimento, no qual partimos do direito à vida e à autoridade moral e pessoal para irmos além. Podem haver algumas que se auto-intitulam “feministas islâmicas” e insistem na restruturação da hierarquia com as mulheres – em vez de com os homens – no topo, mas estas são minoria. Aliás, a hierarquia é intrinsecamente injusta e reestrutura-se melhor num igualitarismo inclusivo, que inclua não só as mulheres, mas todos os seres humanos invisíveis ou deixados de fora dos lugares islâmicos tradicionais.
Não precisamos de uma nova palavra para substituir “feminismo”, a fim de evitar a dificuldade automática que advém de estereótipos populares, do mesmo modo que seria igualmente incorreto buscar uma nova palavra para “muçulmano”; de preferência, permitamos-nos alcançar uma compreensão mais aberta e ampla do que é o feminismo islâmico, quem o constrói e o estrutura, e dos caminhos diversos e complexos percorridos, não apenas em benefício das próprias mulheres, mas de toda a humanidade.
Seja de forma orgânica ou política, ou por quaisquer outros meios, as mulheres estão reclamando seus espaços no discurso islâmico e mudando sua realidade, talvez através de uma tradição de contar histórias há muito estabelecida, ou mesmo criando mesquitas inclusivas, e algumas pelo retorno ao começo, o próprio Corão. No futuro, talvez o feminismo islâmico se depare com instituições sociais mais fortalecidas, além de recursos que apoiem as mulheres e o fim de desculpas esfarrapadas, mas, sobretudo, talvez vejamos o renascimento da sabedoria acadêmica feminina (que nunca foi totalmente destruída) no Islã, que una o texto à tradição, para continuamente buscar a justiça ao lado, e não acima, de nossos companheiros homens. Se este é o rumo para o qual estamos indo, então o futuro é claro também.
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Rachelle Fawcett está completando seu Mestrado* em Estudos Islâmicos no Seminário Hartford, viveu no Iêmen e no Egito, e escreve, fala e faz apresentações sobre o feminismo islâmico, competência (trans)cultural, pluralismo e teologia crítica.
* No texto original, MA, sigla que significa, literalmente, “Mestre em Artes”. A expressão nada tem a ver com “artes” em sentido estrito. No sistema educacional anglo-americano, um diploma em “artes” significa que o aluno está focado numa ampla area de aprendizado e discussão, ao passo que um diploma em “ciência” implica numa compreensão profunda e técnica da matéria estudada.
Simone Andrea é autora de “Direitos da Filha e Direitos Fundamentais da Mulher” (Ed. Juruá) e escreve no blog Simone Andrea.

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